O AGRONEGOCIO E A AGRICULTURA FAMILIAR

AGRICULTURA FAMILIAR

AGRONEGOCIO – UMA REALIDADE A SERVIÇO DO CAPITAL

Adolfo Brás Sunderhus[1]

INTRODUÇÃO

O termo agronegócio ou agro business e um termo técnico que não expressa à linguagem do agricultor familiar. Este termo se refere ao desenvolvimento das atividades agropecuárias por setores como o latifúndio, a indústria dos agressivos químicos aqui representados pelos adubos solúveis e pelos agrotóxicos – venenos, da indústria dos maquinários pesados enfim, os quais nunca tiveram nenhum interesse no desenvolvimento e no fortalecimento da agricultura familiar e de suas formas de representação. Mas enfim como podemos definir esta atividade que tomou conta dos meios de comunicação, da economia e, sobretudo da consciência da classe política.

O AGRONEGÓCIO E SUA POLITICA DE DESENVOLVIMENTO

O agronegócio para irradiar sua ação com segurança e rapidez centrou sua política de desenvolvimento na destruição de nossas riquezas naturais aqui entendidos como solo, florestas e recursos hídricos, queimando milhares de espécies que guardam não só a maior biodiversidade vegetal do mundo, mas também aquilo que poderia ser transformado em riqueza muitas vezes maior do que a as cadeias produtivas de monoculturas proporciona por exemplo.

Na busca desenfreada pelo equilíbrio da balança comercial foi devastado, queimado todo o nosso bioma (carga genética), vegetal, animal e dos microorganismos, matérias primas essenciais para o desenvolvimento da medicina natural, da agricultura agroecologica dentre outros. De forma desequilibrada e irresponsável foi destruída a fauna silvestre mais rica do planeta. Nesta ótica desenfreada e na certeza do ganho de capital e de poder poluímos e extinguimos nossos mananciais hídricos de forma irreversível com agressivos químicos (venenos e adubos solúveis) aliados a técnicas de manejo de solo agressivas que permitiram o assoreamento e secagem das fontes de perenidade de nossos rios.

A RELAÇÃO SOCIAL DO AGRONEGÓCIO

Socialmente o agronegócio causou em uma década o maior êxodo rural que se tem noticia promovendo um verdadeiro entulhamento de pessoas, agricultores e trabalhadores rurais na periferia das grandes, médias e pequenas cidades. Estes seres humanos que impedidos de exercerem o seu trabalho na agricultura familiar produzindo 70,00% dos alimentos que chegam à mesa de cada cidadão e cidadã, passam então a serem clientes do Programa Fome Zero Bolsa Família e outros tantos remendos sociais e políticas compensatórias.

A agricultura não familiar representada pelos domínios do latifúndio e por uma elite política defende o chamado agronegócio mesmo tendo a clareza de que ele representa apenas 15,60 % do total de estabelecimentos agrícolas. Este forte contexto se faz, no entanto pelo víeis de que este monopoliza 75,70 % da área agrícola e impõe a cinco séculos ao país um modelo de “desenvolvimento” tendo com centro a grande propriedade, a monocultura extensiva e o interesse em atender fortemente ao mercado externo. Este modelo exportador e o responsável por um significativo saldo na balança comercial – “orgasmos econômicos”. Por outro lado a sociedade que pouco ou nada participa desta casta econômica e política se pergunta quanto custa? A que custos econômicos, sociais, culturais e ambientais estas ”divisas” são obtidas.

Podemos enumerar diversas como: depredação ambiental, trabalhadores e trabalhadoras em regimes de semi escravidão, concentração de terras, riqueza e renda, expulsão de famílias e comunidades tradicionais do campo são a fonte de manutenção e equilíbrio deste modelo do agronegócio.

A nossa história nos mostra que as questões sociais eram tratadas como casos de polícia, pois nas melhores terras não se podiam plantar alimentos, as melhores terras eram destinadas para o plantio de café com forte víeis para o mercado exportador, a população pobre do campo tinha o tratamento de “jecas tatus” e merecedores de apenas sentimento de pena e, portanto eram necessários políticas de caráter assistencialista. Cabe aqui ressaltar Monteiro Lobato que fez o primeiro contraponto a esta questão, sabendo identificar a causa da pobreza e da ignorância do seu personagem: os vermes que o jeca tinha na barriga, a elite os tinha na cabeça, sentenciou o escritor.

O AGRONEGÓCIO  E A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR

O golpe militar de 1964 teve como um dos seus propósitos reprimirem e extinguir os movimentos populares do campo que passavam a exigir “reforma agrária  na lei ou na marra”. Diante deste forte poder militar foram liquidados os movimentos organizados do meio rural iniciando-se em seguida um processo histórico em que foi visto o maior número de assassinatos de trabalhadores rurais, agentes pastorais, presidentes dos sindicatos de trabalhadores rurais, padres, freiras e advogados que se posicionavam favoráveis a reforma agrária e a causa da agricultura familiar. Assim a violência associada à certeza da impunidade assegurou a “modernização” da agricultura brasileira, mantendo firme e intocável a sua estrutura fundiária das grandes propriedades.

Fortes transformações ocorreram na economia capitalista a partir da década de 90, tendo como eixo político o neoliberalismo. No entanto os métodos para enfrentar os que continuam se opondo não mudaram. Tornaram-se assim mais amplos os processos de se perseguir, criminalizar e dentro de suas necessidades extinguir os que ousam se opor ao “agronegócio neoliberal” e aqueles que defendam a agricultura familiar e sobretudo a quem ousa organizar as famílias  do campo excluídas deste modelo concentrador de poder e riqueza.

CONCLUSÃO

E necessário, portanto que se retorne ao debate sobre qual modelo de agricultura interessa ao meio rural e a sociedade organizada. Certamente esta tomada de decisão, esta escolha será a de uma agricultura que garanta a produção de alimentos saudáveis assegurando a preservação ambiental e que promova a distribuição de riqueza e renda produzida, valores e conquistas até hoje incompatíveis com o modelo de agricultura do agronegócio.

E necessário e urgente que as políticas públicas sejam pensadas, planejadas, construídas e avaliadas no víeis dos dados do censo agropecuário divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), que põe definitivamente uma luz sobre os dois modelos agrícolas em disputa hoje no nosso país. Nele está evidenciado que: a agricultura familiar, ocupando apenas 24% da área agrícola, produz 38% da riqueza desse setor produtivo; emprega 75% da mão de obra no campo; responde por 87% da produção nacional de mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café , 34% do arroz, 21% do trigo, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves e 30% dos bovinos. Este “agronegócio” verdadeiramente interessa aos agricultores familiares e as suas formas de organização e a sociedade. Esta verdadeiramente é uma agricultura consolidada num processo de transformação produtivo e social com resgate do valor, o saber, da identidade, do respeito ao meio ambiente e da cidadania do mundo rural onde os protagonistas de sua história são os agricultores, as agricultoras, os trabalhadores e as trabalhadoras rurais.


[1] Engenheiro agrônomo

CREA – ES 2146 D / 11ª Região

Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES, Brasil

ÁREAS DE ATUAÇÃO

1-        Organização Social e Redes Solidárias

2-        Microfinanças sociais

3-        Análise de Cadeias Produtivas

4-        Custo de Produção dos Arranjos Produtivos Locais

5-        Projetos Captação de Recursos – Agropecuária

6-        Projetos de Recuperação Ambiental

 

 

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