AGROINDÚSTRIA COMO FERRAMENTA PARA SUSTENTABILIDADE DA AGRICULTURA FAMILIAR

AGROINDÚSTRIA ARTESANAL FAMILIAR RURAL

FERRAMENTA PARA SUSTENTABILIDADE SOCIO ECONOMICA DA AGRICULTURA FAMILIAR

Adolfo Brás Sunderhus[1]

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento da agricultura familiar passou por várias fases todas dentro de um contexto social, produtivo, econômico e político diferenciado que pode ser resumido em três fases distintas:

  • Uma primeira fase entendida como um processo de colonização, desbravamento e constituição das primeiras atividades sociais e agropecuárias desenvolvidas com o objetivo básico visando o autoconsumo das famílias;
  • Uma segunda fase que tem uma maior integração ao mercado estabelecendo-se assim o início do processo da especialização produtiva;
  • Uma terceira fase que se caracteriza pela intensa mercantilização da agricultura familiar e seu contínuo processo de exclusão social, econômico e político.

AS AGROINDÚSTRIAS FAMILIARES ARTESANAIS RURAIS

Assim, até meados de 1990 a agricultura familiar reproduziu-se com base em relações de mercado que a levaram a uma crescente fragilização, com forte dependência de insumos e tecnologias externas a unidade de produção familiar que a levaram a voltar-se quase que totalmente para o mercado destes fatores de produção.

Após a década de 90 começa a haver um movimento contínuo de diversificação econômica e produtiva e de organização social junto às famílias rurais que formam o tecido social produtivo e econômico da agricultura familiar, incluindo-se ai o início do surgimento das agroindústrias familiares artesanais rurais e de outras atividades produtivas, de serviços, que ocorrem em conjunto e de forma integrada e dinâmica no espaço rural e que passam a ser denominada de “atividades não agrícolas” de forma equivocada pois esta nasce dentro do universo e da realidade rural.

A partir deste marco histórico e temporal a agricultura familiar passa a experimentar uma crescente diversidade e pluralidade social, produtiva e econômica tendo como base deste processo a agroindústria familiar artesanal rural inserindo-se e solidificando-se como estratégia de reprodução social econômica e política dentro do grande universo que se fortalece e sedimenta-se através da conceituação de agricultura familiar. Assim a agricultura familiar e definida como uma organização social, produtiva, econômica e política e como estratégia de produção e reprodução social e econômica entendida como uma atividade de produção de produtos agropecuários com transformação destes em derivados alimentares de diversos tipos, ocorrendo, permitindo e contribuindo para a agregação de valor ao produto final com grande relevância do trabalho e da gestão sendo desenvolvida pelo núcleo familiar que empresta saber, identidade, pertencimento, significados e as estratégias que serão adotadas na unidade de produção familiar.

A AGROINDÚSTRIA FAMILIAR ARTESANAL RURAL

A agroindústria familiar artesanal rural é portanto uma forma de organização produção e reprodução social e produtiva em que a família rural produz, processa e\ou transforma parte de sua produção agrícola e\ou pecuária, agrega novas capacidades produtivas visando à produção de valor de troca que se realiza na comercialização. Histórica e culturalmente o processamento e a transformação dos alimentos ocorrem na cozinha das agricultoras. A agroindústria familiar artesanal rural se constitui, portanto num novo espaço e num novo empreendimento social produtivo e econômico organizado a partir de redes de conhecimento e saber da família do agricultor e de suas relações entre as gerações cuja gestão e realizada pelos próprios agricultores e agricultoras familiares sendo constituída de instalações e equipamentos adequados à escala de produção de acordo com sua realidade produtiva e de organização social.

Assim didaticamente podemos ter os seguintes entendimentos sobre esta atividade de natureza social, produtiva, econômica e política:

Entende-se como familiar à agroindústria de uma família individual, de um grupo de agricultores e de um grupo de agricultores associados em organizações sociais – grupos produtivos / associações / cooperativas familiares, que possuem no seu modo de vida, trabalho e gestão a forma familiar na administração e gerenciamento do empreendimento em todas as suas fases da produção, da transformação e da comercialização destacando-se os seguintes marcos norteadores:

  • O empreendimento deve produzir a sua matéria-prima na unidade de produção familiar exceto nos casos de produção de produtos que são transformados a partir da cultura local, como e o caso de massas, biscoitos, pães e outros em que a produção primária não faz parte da realidade produtiva à unidade de produção familiar;
  • A força de trabalho utilizada no empreendimento deve ser da própria família na sua maior parte, ou seja, as tarefas nas atividades, na gestão, na comercialização e no trabalho diário devem ser realizadas por pessoas do grupo familiar, podendo, haver contratação de força de trabalho extra as unidades agroindustriais familiares, desde que, em número pequeno de empregados e de acordo com a sua realidade produtiva e econômica;
  • Na agroindústria familiar artesanal rural é o grupo familiar que define as estratégias de reprodução social nas várias etapas e operações de produção e transformação dos alimentos e oferta de serviços. Isso começa com a produção da matéria-prima, passa pela elaboração e processamento dos alimentos, pelo processo de gestão das unidades e pelo acesso aos mercados e pelo processo de comercialização do produto final.

A origem da agroindústria familiar artesanal rural esta diretamente ligada ao processo de colonização do local sendo rica e diversificada pela cultura de povos italianos, alemães, poloneses, africanos, indígenas dentre outros ao longo desta formação e diversidade étnica e cultural no Estado. Estes povos trouxeram consigo o saber, a cultura e a prática da transformação dos alimentos objetivando o melhoramento, a conservação e armazenamento dos mesmos. No transcurso do processo histórico, esta prática de transformação se iniciava uma nova alternativa de diversificação das unidades de produção familiar proporcionando agregação de valor ao produto, aumento da renda familiar, geração e valorização do trabalho da mulher

A SUPERAÇÃO DOS DESÁFIOS PARA SUSTENTABILIDADE DA AGROINDÚSTRIA FAMILIAR ARTESANAL RURAL

Historicamente as transformações experimentadas pela agricultura familiar, a implantação de novas tecnologias derivadas de sua modernização, fizeram com que o agricultor familiar se visse em condições de forte ameaça, pela dependência com as grandes empresas da modernidade produtiva, econômica e de organização social tendo como marco histórico a revolução industrial eliminando os processos de fabricação artesanal imprimindo uma forte desagregação de trabalho aos agricultores familiares com predomínio do capital comercial e agro industrial sobre a base social e produtiva da agricultura familiar consolidando-se a partir da revolução verde durante a década de 70 completando-se com o processo da globalização das econômicas atuais.

Todo este processo de exclusão social, produtivo, econômico e político do agricultor não lhe tiram a prática, o seu saber e a sua cultura da transformação dos seus produtos, quanto muito menos à produção para o seu autoconsumo sendo, portanto a prática da agroindústria familiar artesanal rural resultado de um processo social e cultural vivido por essas famílias e repassado de geração a geração e que hoje se sedimenta como forte alternativa e realidade econômica e de transformação das políticas públicas. Desta forma à agroindústria familiar artesanal rural tem fortes vínculos com os conhecimentos que foram herdados e repassados de geração para geração no interior do grupo familiar que são academicamente chamados de transmissão do corpo do saber que ocorre de forma constante e dinâmica entre os agricultores familiares. Esta transformação encontrara um número expressivo de agroindústrias familiares artesanais rurais com suas origens nas tradições, saber, prática e conhecimentos históricos das práticas dos agricultores familiares integrados em si próprios seja nos seus interesses individuais seja nos interesses coletivos como e a aspiração de participar em feiras municipais de comercialização dos produtos da agricultura familiar que já são uma realidade em muitos municípios, como uma estratégia de acesso a este tipo de mercado local para oportunizar geração de trabalho, geração de renda e melhoria de qualidade de vida como forma de alavancar o desenvolvimento sócio econômico de uma região.

CONCLUSÃO

A agroindústria familiar artesanal rural é uma estratégia de organização social, de reprodução produtiva econômica e política da agricultura familiar e dever ser um dos alicerces para se implantar e consolidar programas, políticas públicas ou projetos de desenvolvimento rural com objetivo promover o desenvolvimento sustentável no meio rural. E um processo de desenvolvimento baseado nas alternativas já existentes no meio rural, onde praticamente toda unidade de produção familiar é uma agroindústria com potencial de desenvolvimento gerando um aumento considerável no valor adicionado bruto da unidade de produção familiar permitindo o aumentando a renda das famílias rurais.

A agroindústria artesanal familiar rural em sua evolução buscando atender as necessidades de segurança alimentar e de trabalho contribuíram para que as famílias rurais adquiram novas habilidades profissionais e intelectuais, entendendo que o processo de sustentabilidade das agricultura familiar no mundo rural e no mundo urbano deve ser exercida de uma forma dinâmica pressupondo limites para efetivação do bem estar econômico para poder se realizar um bem estar social e ambiental.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

GAZOLLA, M. Apostila didática de Gestão Rural I: Conceituação básica. Universidade Federal de Santa Maria (CAFW – UFSM). Material teórico de aula não publicado, Frederico Westphalen – RS, 26p., 2006.

HOFMANN, R. et all. A administração da empresa agrícola. Editora Pioneira: Economia – Estudos agrícolas, 7ª Edição. São Paulo, 325p., 1987.

MIOR, L. C. Agricultores familiares, agroindústrias e redes de desenvolvimento rural. Chapecó: SC, Editora Argos, 338 p., 2005.

SACCO DOS ANJOS, F.; SCHNEIDER, S. Agricultura familiar, desenvolvimento local e pluriatividade no Rio Grande do Sul: a emergência de uma nova ruralidade (AFDLP). Pelotas, 2003. [Relatório Final – Projeto de pesquisa CNPq – UFPel (PPGA)/UFRGS (PGDR)] (in press).

PRESOTTO, L. L Principais procedimentos para registrar uma pequena agroindústria. Ministério de Desenvolvimento Agrário. Secretaria da Agricultura Familiar. Brasília, janeiro de 2001.

WOORTMANN, E. F.; WOORTMANN, K. O trabalho da terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Editora da UNB: Brasília, 192p., 1997

 


[1] Engenheiro agrônomo

CREA – ES 2146 D / 11ª Região

Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES, Brasil

ÁREAS DE ATUAÇÃO

1-       Organização Social e Redes Solidárias

2-       Microfinanças sociais

3-       Análise de Cadeias Produtivas

4-       Custo de Produção dos Arranjos Produtivos Locais

5-       Projetos Captação de Recursos – Agropecuária

 

 

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