JUVENTUDE RURAL

JUVENTUDE RURAL – AMPLIANDO AS OPORTUNIDADES

Escrito por João Santiago

Quinta 05 de Março de 2009 01h09min

Precisará de pontes. Que sejam firmes e fortes. Na fé e na ideologia. Que nos liguem aos abismos sociais. Que acabem com os isolamentos e com as ilhas sociais. Que nos levem da indiferença e do comodismo ao engajamento.

 

 

Estudo publicado pelo NEAD mostra, em primeiro lugar, que parte importante dos jovens vivendo hoje em estabelecimentos agropecuários – e a grande maioria das moças, em especial – não deseja seguir a profissão dos pais.

O trabalho limita-se ao oeste de Santa Catarina, mas é certamente representativo: mesmo em uma das regiões em que a agricultura familiar tem maior expressão social e econômica no País, um terço dos rapazes e quase dois terços das moças declaravam não querer continuar vivendo em estabelecimentos agropecuários. Pior: as pesquisas dessa equipe mostram que permaneceram nas unidades produtivas agropecuárias, principalmente, os jovens com menor grau de escolaridade: em 1999, um terço dos filhos de agricultores com idades entre 19 e 24 anos e que viviam em propriedades agropecuárias tinham apenas até a quarta série. Entre os jovens com idade entre 24 e 29 anos, eram dois terços os que praticamente não haviam estudado.

Há aí um imenso desafio para as políticas de desenvolvimento rural: mudar o padrão segundo o qual tornam-se agricultores aqueles jovens que não quiseram ou não conseguiram estudar. Não há dúvida de que a distribuição de ativos (educação, crédito, terra) é a mais importante premissa para o sucesso na luta contra a pobreza: porém, tão importante quanto esses ativos é criar o ambiente para que seu uso escape da rotina e se apóie em projetos inovadores, dos quais o conhecimento seja o mais importante insumo.

Neste víeis uma política de desenvolvimento rural voltada para a juventude não pode limitar-se à agricultura. Os futuros agricultores serão cada vez mais pluriativos, suas rendas dependerão da agricultura, mas também de outras atividades. Quanto mais os jovens estiverem preparados para essas outras atividades – entre as quais se destacam as voltadas à valorização da própria biodiversidade existente no meio rural – maiores suas chances de realização pessoal e profissional. Além disso, nas regiões rurais – entendidas como as áreas interioranas do País – não vivem apenas agricultores. O grande risco das políticas de desenvolvimento rural é que, por serem elaboradas em ministérios cujas bases sociais são de agricultores, ignorem esta realidade elementar e hoje sobejamente conhecida: o meio rural é muito maior do que a agricultura.

“Uma política de desenvolvimento rural voltada para a juventude não pode limitar-se à agricultura. Os futuros agricultores serão cada vez mais pluriativos”

Uma verdadeira política de desenvolvimento rural deve associar a atribuição de ativos aos jovens – dos quais o mais importante é uma educação de qualidade – com o estímulo a um ambiente que estimule a formulação de projetos inovadores que façam do meio rural, para eles, não uma fatalidade, mas uma opção de vida.

Seria interessante, no caso daqueles que pretendem estabelecer-se como agricultores, que sua implantação fosse acompanhada e mesmo condicionada à elaboração de um projeto técnico consistente, cujas chances de afirmação em mercados dinâmicos fossem altas. Mais importante do que o aprendizado de técnicas agronômicas, neste caso, são os conhecimentos de gestão, contabilidade e funcionamento de mercados. A política deve contemplar igualmente os jovens rurais que não querem ser agricultores, mas gostariam de permanecer em suas regiões de origem, valorizando seus círculos de amizades, contribuindo para o surgimento de novas atividades e evitando, na prática, a falsa oposição entre a monotonia e a pobreza da vida interiorana e os conhecidos problemas das periferias das grandes cidades.

A revalorização dos espaços rurais é um dos fenômenos demográficos mais interessantes deste início de Século XXI e está ligada não tanto à importância setorial da agricultura, mas a dois traços universais da ruralidade:

1-      A presença marcante da biodiversidade;

2-      As relações de interconhecimento tão decisivas nas regiões interioranas do mundo todo.

Neste contexto os jovens são os protagonistas mais importantes desta redescoberta, cuja natureza ampla, diversificada e plural deve estar no centro da política pública.

Ricardo Abramovay*

“Fixar o homem ao campo”: poucas expressões são tão populares e, ao mesmo tempo, nocivas a uma política de desenvolvimento rural capaz de mobilizar as melhores energias da juventude. “É poste, e não gente, que fica parado num só lugar”, gostava de dizer o saudoso José Gomes da Silva, nome emblemático da luta pela reforma agrária no Brasil. E em nenhum outro momento da vida a mobilidade, o desejo de viver novas experiências e correr riscos são maiores que na juventude. Além de ser um traço característico da juventude, o impulso para a inovação é evidentemente útil para a sociedade como um todo.

Para que a propensão dos jovens à inovação se realize, entretanto, é necessário um ambiente social que estimule o conhecimento e favoreça que as novas idéias tenham chance de se tornar empreendimentos. Uma das maiores doenças de nosso tempo está exatamente na incapacidade de as sociedades contemporâneas oferecerem perspectivas para que a inovação se concretize em projetos – privados ou sociais – construtivos. Para isso, o mais importante é que o destino dos jovens não esteja traçado de antemão desde seu nascimento, como fatalidade. Ora, o pressuposto da tão propalada “fixação do homem ao campo” é que não há melhor caminho para os jovens rurais que sua transformação em agricultores. Há dois equívocos nesta suposição.

“Para que a propensão dos jovens à inovação se realize, entretanto, é necessário um ambiente social que estimule o conhecimento e favoreça que as novas idéias tenham chance de se tornar empreendimentos”

De acordo com o sítio da PJR:

“Evangelizar os jovens e adolescentes empobrecidos da roça, despertando a consciência do ser pessoa, do ser cidadão e cidadã, da classe a que pertencemos, resgatando o sentido cristão de seus opções de vida e vivenciando, nas práticas cotidianas, os mandamentos de Jesus Cristo, Mestre e Irmão.”

* Ricardo Abramovay é Professor Titular do Departamento de Economia da FEA e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP – Pesquisador do CNPq – Organizador de Laços Financeiros na Luta contra a Pobreza (Annablume/FAPESP, 2004) – http://www.econ.fea.usp.br/abramovay/

1 SILVESTRO, Milton; ABRAMOVAY, Ricardo; MELLO, Márcio A.; DORIGON, Clóvis e BALDISSERA, Ivan T. (2001) – Os Impasses Sociais da Sucessão Hereditária na Agricultura Familiar – MDA-NEAD/EPAGRI.

2 Ver o trabalho de Mello et al. (2003) – “Educação formal e os desafios para a formação de uma nova geração de agricultores” – XLI Congresso da SOBER – Juiz de Fora – 27 a 30 de julho –

 

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