A SUSTENTABILIDADE PELA FORMAÇÃO ESCOLAR

AS QUESTÕES DA SUSTENTABILIDADE E AS PRÁTICAS SECULARES DA ESCOLA

Genebaldo Freire Dias[1]

“A próxima guerra será por causa da água.”

Esta frase era comumente empregada quando alguém queria se referir à necessidade de se produzir mudanças no comportamento, nos hábitos ou nas atitudes das pessoas, das instituições e das autoridades, em relação ao meio ambiente e ao uso dos recursos naturais.

Hoje, essa frase apresenta-se inadequada, desatualizada. São 36 as nações em guerra por causa da água. Cerca de 60 países estão em conflito desde o início da década de 1990. A guerra causada pela água é uma realidade. Nos próximos 25 anos, metade da população humana terá limitações sérias para o acesso à água potável.

As inquietantes mudanças ambientais que se anunciavam para 2050 já estão presentes, traduzidas por profundas alterações climáticas, perda de solos férteis, desaparecimento das florestas e dos animais, surgimento de novas doenças, drástica redução da qualidade de vida e uma profunda sensação de que o tempo encolheu. Estamos de tal forma envolvida em nossas tarefas sempre urgentes que não paramos para refletir sobre o suicídio coletivo que representa o atual estilo de vida, no qual está imersa a maior parte das pessoas.

Aumentamos a produção, aumentamos o consumo, aumentamos a degradação ambiental e estamos sempre prontos para justificar mais degradação, desde que criemos novos empregos, para atender cada vez mais pessoas que nascem e começam a consumir, a produzir resíduos e a fazer mais pressão sobre os recursos naturais.

Hoje somos a espécie dominante na Terra e temos nos transformado em uma praga, devido ao nosso comportamento predatório, egoísta, imediatista, de querer tudo, sempre mais e agora.

O modelo de desenvolvimento adotado, enquanto gera exclusão social, por um lado, gera opulência, por outro, e ambos degradam. O modelo também gera uma crise de percepção. Para se manter o atual estilo de vida, destroem-se os sistemas de suporte da vida na Terra. Poluímos as águas que bebemos, o ar que respiramos e os solos que produzem nossos alimentos. Acabamos com as florestas que garantem a água, o clima ameno, o ar puro e o solo produtivo. Por último, dizimamos os animais que compõem a teia da vida e tornamos alguns deles nossos escravos para servirem de fonte de proteínas.

O analfabetismo ambiental levou a espécie humana a produzir essas pressões insuportáveis sobre os sistemas naturais. Com isso, a capacidade de suporte dos ecossistemas globais já foi superada. Estamos vivendo à custa do nosso capital natural, ou seja, estamos vivendo de retiradas contínuas de uma poupança na qual não fazemos nenhum depósito.

No nosso metabolismo urbano-industrial, estamos produzindo mais gás carbônico do que os sistemas da Terra podem absorver. A velocidade de exploração das florestas e dos solos é, muitas vezes, superior à capacidade de regeneração da natureza. Extrapolamos todos os limites que a ignorância permite.

Como conseqüência, percebe-se a perda da Qualidade de Vida, de uma forma generalizada, em todo o mundo. Esse prejuízo traduz-se de forma diferente entre os diversos povos, grupos sociais e pessoas. Vai desde a perda de uma cachoeira de água potável a um riacho que sumiu; de um recanto destruído à violência dos assaltos e do desemprego; do empobrecimento estético à erosão cultural; da insensatez das guerras à arrogância e à ganância que as geram.

O desvio dessa rota de colisão com a insustentabilidade e a reversão dessa tendência catastrófica constitui então, o maior desafio evolucionário enfrentado pela espécie humana, desde que esta se organizou em sociedade.

Esse desafio envolve todas as pessoas em todos os ramos de atividade. Todos estão envolvidos nesse experimento global. Você está nesse experimento, sua família, seus empreendimentos, seu futuro.

O enfrentamento desses desafios requer novas ferramentas teóricas, novas práticas e o resgate de valores e a criação de novos, sintonizados com uma ética global.

A despeito da permanência de uma tendência pró-insustentabilidade, felizmente a última década testemunhou o crescimento das respostas culturais adaptativas exibidas pelos seres humanos. Foram realizadas importantes conferências internacionais, que resultaram em tratados, acordos, convenções, desenvolvimento dos processos de gestão ambiental e uma crescente mobilização voltada para a sensibilização e conscientização.

Ganharam impulso os diversos instrumentos de Gestão Ambiental, como o processo de Educação Ambiental, os licenciamentos, as certificações, o aperfeiçoamento das leis ambientais e dos mecanismos de participação popular.

É esse contexto que exige uma Escola voltada para a formação e menos preocupada com conteúdos. Uma Educação mais sintonizada com os desafios do seu tempo e capaz de promover o desenvolvimento de habilidades, competências e envolvimentos, realizadores de mudanças em prol da sustentabilidade socioambiental.

 


[1] Genebaldo Freire Dias

Bacharel em Ciências Biológicas

Ph.D em Ecologia da Fauna e Flora.

Produziu diversos trabalhos nas áreas de Educação Ambiental, Ecologia Humana, Ecossistemas Urbanos e Dimensões Humanas das Alterações Ambientais Globais.

Autor de diversos livros na área ambiental.

gfreire@ucb.br

 

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