O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO VI

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

A FACTIBILIDADE E EFICÁCIA DA ESTRATÉGIA PROPOSTA

As 12 alternativas descritas no capítulo anterior poderiam ser adotada integral, oportuna e corretamente pelos pequenos produtores, apesar das suas reconhecidas restrições produtivas; com a única condição de que eles estivessem capacitados e dispusessem de tecnologias compatíveis com os recursos que realmente possuem. Estas alternativas se adequam à sua situação de escassez de recursos porque:

– Algumas delas, para ser adotadas, não exigem nenhuma despesa adicional ou insumo material externo à propriedade; geralmente apenas requerem:

a) mudanças na forma e na época de executar os trabalhos;

b) reordenamento no uso dos recursos disponíveis (como por exemplo o parcelamento na aplicação dos fertilizantes para reduzir a lixiviação e aumentar sua eficiência).

– Algumas inclusive diminuem o uso de insumos externos (por exemplo, o manejo integrado de pragas ou a rotação de culturas).

– Outras, se bem que requerem insumos externos ou despesas adicionais, têm custos insignificantes em relação aos benefícios econômicos que produzem; como por exemplo, prevenção de perdas pós-colheita, inoculação de sementes de leguminosas, mineralização, vacinação ou desparasitação dos animais, etc. A título de exemplo: A então Empresa Catarinense de Pesquisas Agropecuárias – EMPASC (atual EPAGRI) organismo oficial de pesquisa do Estado de Santa Catarina, Brasil, conduziu uma pesquisa que demonstrou o seguinte: os bovinos que receberam tratamento antiparasitário estratégico (três aplicações ao ano) chegaram ao peso de mercado (380 kg), 417 dias antes dos animais testemunhas, cuja única diferença foi não haver recebido nenhum antiparasitário. A espetacularidade do resultado provavelmente se deveu, em grande parte, ao fato de que todos os animais (inclusive os testemunhas) estiveram submetidos a precárias condições alimentares; em tal circunstância, os animais com maior carga parasitária sofrem em maior grau as consequências de déficit alimentar; se todos os animais estivessem bem alimentados, provavelmente o resultado seria menos espetacular, porém, ainda assim, a aplicação do antiparasitário seria economicamente vantajosa [6].

As alternativas mencionadas no capítulo anterior mostram que é um perigoso equívoco afirmar que a tecnificação da agricultura está sempre condicionada à necessidade de crédito, insumos modernos, maquinaria e grandes gastos adicionais. É fácil constatar que a adoção destas inovações de baixo custo é uma alternativa realista, factível e eficaz para solucionar muitos dos problemas dos agricultores, porque através delas é possível:

a) “aumentar” a superfície de terra ao obter dela um maior número de colheitas num mesmo período de tempo e fazê-lo com maiores rendimentos; também é possível “aumentar” verticalmente o rendimento animal, via melhoramento produtivo e reprodutivo;

b) diminuir a dependência do crédito;

c) reduzir as despesas com insumos industriais ou substituí-los por outros produzidos na propriedade;

d) aumentar rendimentos, reduzir custos unitários de produção e elevar os preços de venda;

e) diminuir riscos;

f) beneficiar-se de uma maior percentagem do preço final que os consumidores pagam pelos produtos agrícolas;

g) aumentar a renda dos agricultores;

h) e como conseqüência dos sete êxitos anteriores, solucionar os principais problemas que afetam cotidianamente as famílias rurais.

Se as 12 alternativas antes descritas podem ser adotadas pela maioria dos agricultores, apesar das suas atuais restrições, e se elas têm demonstrado sua eficácia técnica e suas vantagens econômicas; por que não estimular a sua adoção? Dessa forma se ofereceria, à totalidade dos agricultores, reais oportunidades de produzir maiores excedentes e gerar renda adicional para iniciar um processo gradual de tecnificação mais avançado. Por que não buscar a equidade por esta via realista, factível e eficaz?

A realidade é que, apesar da factibilidade e eficácia destas inovações, as grandes maiorias dos produtores agropecuários não as adotam (basta percorrer as suas propriedades ou analisar os baixíssimos rendimentos por hectare e por animal da agricultura latinoamericana para comprová-lo); não as adotam porque não as conhecem, porque não sabem aplicá-las corretamente ou porque as subestimam, porque a sua factibilidade e eficácia não lhes foi demonstrada. Por estas razões é necessário difundi-las, indicar seus benefícios aos agricultores; transformar o desconhecido em conhecido; capacitá-los para a sua correta, oportuna e preferentemente integral aplicação; demonstrar-lhes que eles são capazes de adotá-las com os recursos de que dispõem nas suas propriedades; e motivá-los para a tecnificação de suas explorações agropecuárias e a organização de suas comunidades. Estas deverão ser as prioridades, se se quer enfrentar o subdesenvolvimento rural com realismo e factibilidade.

Se estas premissas são válidas, os países que não têm possibilidades de promover o desenvolvimento rural com equidade através do modelo convencional, por não poder oferecer todos os seus componentes à totalidade dos agricultores, deveriam adotar estratégias realistas, objetivas e pragmáticas, iniciando o processo de desenvolvimento agropecuário a partir das alternativas descritas no capítulo anterior. A simples introdução destas inovações seria suficiente para solucionar, em grande parte, os problemas fundamentais dos pequenos agricultores: seu auto-abastecimento, a geração permanente de maiores excedentes para o mercado, a plena ocupação da mão-de-obra familiar em atividades produtivas e geradoras de renda e a obtenção de um fluxo constante de entrada de dinheiro.

“Os problemas mais imediatos da maioria dos agricultores parecem extender-se em proporção inversa à complexidade de suas soluções. Isto significa que grande parte dos crônicos problemas que afligem aos pequenos agricultores poderiam ser solucionados através de tecnologias elementares e de baixo custo, e do uso racional dos recursos que eles mesmos possuem. A ciência agronômica assim o tem comprovado e continua confirmando-o. Inumeráveis experiências de campo têm demonstrado que a insuficiência de recursos de capital, ainda que real, nem sempre é o principal problema e, também, que a alocação de recursos adicionais nem sempre é a solução. De acordo com o esquema abaixo ilustrado, a maioria dos agricultores (B) necessitariam de tecnologias elementares, porém adaptadas aos recursos que eles possuem (b) sempre que sejam de baixo custo, pouco risco e fácil adoção. Apenas uma pequena minoria necessitaria de tecnologias mais sofisticadas e de recursos em grande quantidade.

Se esta premissa é verdadeira, para que submeter a grande maioria dos agricultores (B) a uma infrutífera dependência de tecnologias sofisticadas e de recursos externos (a)? Por que não começar o processo de tecnificação através de uma estratégia mais realista, oferecendo-lhes tecnologias simples que não requeiram recursos externos e que os liberem da referida dependência?

As 12 alternativas mencionadas no capítulo anterior, às quais se poderiam agregar muitas mais, demonstram que é perfeitamente possível promover a tecnificação da agricultura, em favor de todos os produtores hoje; apesar da crise, mesmo que a terra e os demais recursos de capital sejam escassos, mesmo que o crédito e os insumos sejam limitados e a relação insumo/produto seja desfavorável.

Se se proporcionasse aos agricultores apenas os três fatores de baixo custo mencionados no capítulo 4, eles mesmos estariam em condições de solucionar os seus problemas sem necessidade de recorrer a fatores de alto custo e difícil acesso (crédito, insumos, maquinarias, subsídios, infraestrutura, etc.).

Dito de outra forma:

a) Se os agricultores dispõem de tecnologias compatíveis com os seus recursos; se os utilizam integralmente e adotam corretamente as referidas inovações; e se estão devidamente organizados os fatores externos tradicionais perdem importância relativa e, de certa maneira, passam a ser prescindíveis.

b) Se eles não adotam corretamente os componentes será de pouca eficácia; porque estes fatores ao ser mal utilizados ou desperdiçados não produzirão resultados na plenitude de suas potencialidades; dentro deste raciocínio, os fatores de baixo custo (conhecimentos) são muito mais importantes que os de alto custo (recursos materiais ou de capital).

Com o objetivo de que a estratégia proposta seja realmente eficaz, é necessário que o trinômio oferta de tecnologias apropriadas/capacitação / organização, seja abordado em forma simultânea (não sequencial) e executado de maneira correta. Para que a renda dos agricultores melhore de forma significativa, é necessário que não só reduzam custos unitários de produção, mas também que aumentem os preços de venda dos excedentes destinados ao mercado. Por tal motivo:

i) A introdução de inovações tecnológicas e gerenciais na etapa de produção não será suficiente se os agricultores, ao não estar organizados, continuarem comprando os insumos a preços muito altos e vendendo a sua produção a preços muito baixos. Ao atuar em forma individual, não conseguem romper o circuito extrativo do setor agroindustrial e comercial; consequentemente, não conseguem reter e beneficiar-se do excedente gerado nas suas propriedades. Para reforçar este argumento basta comparar o preço que o agricultor paga por um quilo de semente de milho híbrido com igual quantidade de grão de sua colheita; a relação geralmente é de 15 para 1 e até de 20 para 1.

ii) A organização dos agricultores para comprar insumos e comercializar os excedentes em condições mais favoráveis não será suficiente se, durante a etapa de produção propriamente dita não forem introduzidas tecnologias destinadas a aumentar rendimentos por superfície, gerar um maior excedente para o mercado, melhorar a sua qualidade e apresentação, e reduzir os custos unitários de produção.

Pelas razões anteriormente mencionadas, para que os agricultores obtenham maiores lucros em suas atividades, deverão promover até onde seja possível, a integração vertical de suas atividades; isto é, deverão encarregar-se (e corrigir as distorções) das três etapas do negócio agrícola: a anterior ao processo produtivo, a etapa de produção propriamente dita e a etapa posterior à colheita.

O desenho no.8 ilustra como os agricultores que se encarregam das três etapas anteriormente descritas, e o fazem com eficiência e racionalidade, diminuem em grande parte a sua dependência das ajudas e influências externas indicadas na parte inferior do desenho no.9, sejam estas públicas ou privadas. Os agricultores que praticam uma eficiente agropecuária diversificada e integrada horizontalmente (na qual o subproduto ou desperdício de uma atividade é o insumo da outra e vice-versa), se tornam mais auto-suficientes e menos vulneráveis às incertezas de clima e de mercado, e aos vaivens das políticas agrícolas; especialmente, se além de diversificar, também verticalizem suas atividades agro econômicas, encarregando-se da pré-produção, da produção propriamente dita e as etapas posteriores a esta (processamento e comercialização).

Estes agricultores, ao diversificarem as suas culturas/criações e ao integrarem verticalmente as suas atividades, têm ocupação produtiva para todos os membros da família durante todo o ano; são auto-suficientes na produção de alimentos e de alguns insumos; geram receitas em caráter permanente e diminuem riscos. Além disto, ao verticalizar as suas atividades, têm menores custos unitários de produção e, finalmente, vendem seus produtos a melhores preços. Em tais condições, é menos provável que se vejam seriamente afetados pelos fatores externos às suas propriedades e comunidades.

Estes agricultores diversificados e integrados horizontalmente e também integrados verticalmente, se vêem menos afetados por políticas agrícolas inadequadas, pela insuficiência de crédito, pelas deficiências no fornecimento de insumos, pelos preços fixados pelo governo para um determinado produto e suas condições de comercialização; porque eles dispõem de muitas salvaguardas contra dependências, adversidades, riscos e incertezas.

Eles conseguem solucionar os seus problemas mais imediatos, apesar de não ter acesso aos fatores clássicos do modelo convencional; isto significa que tal modelo não é necessariamente a única alternativa de desenvolvimento e que os seus componentes não são tão imprescindíveis como muitas vezes se pensa.

Como conseqüência destes melhoramentos, desapareceriam as principais motivações para abandonar o campo e diminuiria a pressão sobre os governos para que solucionem nas cidades, os três grandes problemas que preocupam as autoridades urbanas: gerar empregos, executar projetos habitacionais de alto custo e satisfazer as necessidades alimentares dos pobres; porque os agricultores, eles mesmos, se autoempregariam em suas próprias granjas, construiriam suas próprias casas com os materiais produzidos ou existentes em suas propriedades e se autoabasteceriam de alimentos em seus sítios diversificados; tudo isto em seu próprio meio, com seus próprios recursos e com seus próprios esforços.

É necessário reconhecer e valorizar as imensas potencialidades que existem no meio rural e a partir delas, a baixo custo e com relativa facilidade, solucionar no campo os problemas que não conseguimos resolver nas cidades, mesmo executando programas de altíssimo custo que consomem com voracidade os recursos dos governos. A título de exemplo, no livro “Complexo Agroindustrial – o Agro-business Brasileiro”, dos autores Ney Bittencourt de Araujo, Ivan Wedekin e Luiz Antonio Pinazza, se afirma que manter uma pessoa na cidade, custa 22 vezes mais caro que mantê-la no campo.

É necessário corrigir o equívoco de superestimar o urbano e subestimar o rural; não necessariamente para que os urbanos voltem para o meio rural porque é pouco provável que isto ocorra, porém pelo menos para que os que ainda permanecem no campo, não sigam iludindo-se com os falsos atrativos das cidades.

Definitivamente, é necessário revalorizar o setor agropecuário e rural; discriminar positivamente a agricultura e muito especialmente aos pequenos agricultores; a solução de muitos problemas urbanos (desemprego, falta de moradias, fome, delinquência, etc) está no campo. O marginalizado urbano de hoje é o filho ou neto do camponês desamparado de ontem. São tantas e tão negativas as consequências que o abandono do campo gera nas cidades, que não seria exagerado afirmar: ou se salva as zonas rurais ou se perde a nação (no desemprego, na fome, na delinquência, na violência pública, nas drogas, etc.). Os pequenos agricultores, que são injustamente considerados como o grande problema rural (que repercute negativamente no meio urbano), poderiam e deveriam ser a grande solução, diretamente para o setor rural e indiretamente para o urbano.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

 

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