O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO IX PARTE I

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

PRINCÍPIOS ESTRATÉGICOS E METODOLÓGICOS PARA QUE OS AGRICULTORES PROTAGONIZEM O SEU DESENVOLVIMENTO

Com o objetivo de promover o desenvolvimento agropecuário através deste modelo mais endógeno e autogestionário, deverão ser seguidos alguns princípios estratégicos e metodológicos, entre os quais se destacam os seguintes:

1) Reconhecer e considerar que a família rural é o recurso mais importante, valioso e decisivo para promover o desenvolvimento agropecuário; só ela poderá fazê-lo; se por qualquer motivo ela não o fizer, de pouco servirão os recursos materiais que se lhe proporcionem e as políticas agrícolas favoráveis que se adotem.

O desenvolvimento deverá começar com o ser humano (com a sua decisão e iniciativa) e terminar com ele (ele deverá ser o seu beneficiário).”O potencial humano é o único capaz de gerar potencial econômico, político e social. Uma sociedade de pessoas capacitadas gera mais indivíduos capacitados. Um povo é grande quando pensa grande e atua em razão de sua grandeza. O libertador Simon Bolívar afirmou: A Pátria é do tamanho do saber do seu povo”.

Consequentemente se deve priorizar a capacitação das famílias rurais (por sobre a alocação de recursos materiais) de modo que elas estejam em condições de utilizar racionalmente as potencialidades do seu meio, as quais não são tão limitadas como muitas vezes se pensa. É necessário considerar que os problemas, suas causas e suas soluções estão mais nos seres humanos que nos recursos materiais; quanto mais capacitação se outorgue aos primeiros, menor será sua dependência dos últimos. Muitos agricultores são pobres, não necessariamente por falta de recursos, mas sim porque não têm a suficiente capacidade para utilizá-los e aproveitá-los com fins produtivos e geradores de riquezas.

É o desenvolvimento intelectual das pessoas o que produz os recursos e promove o desenvolvimento material. É o trabalho eficiente e não tanto o capital abundante o que gera produtividade, rentabilidade, prosperidade e independência.

Os países da América Latina estão pagando um preço muito alto por ter privilegiado a distribuição de bens materiais de alto custo (obras de irrigação, drenagem, eletrificação, centros de armazenagem, créditos subsidiados, insumos, reprodutores e maquinaria) e subestimado a importância de capacitar a baixo custo as famílias rurais para que elas pudessem transformar tais recursos materiais em produção, renda e bem estar.

Devido, em grande parte, a este lamentável equívoco, os resultados dos projetos de desenvolvimento rural têm sido decepcionantes. Somente agora estamos nos dando conta que a melhor forma de distribuir renda é distribuindo conhecimentos para que as pessoas melhorem a sua eficiência e produtividade; e por esta via se desenvolvam, graças aos seus próprios esforços e a sua própria capacidade de geração de renda. “O equívoco máximo da América Latina foi o de não considerar o potencial humano como a chave do desenvolvimento e ter deixado passar os anos sem começá-lo por onde deveria tê-lo feito: isto é, pela mente do homem. Existem países subdesenvolvidos porque os seus habitantes são subdesenvolvidos”.

2) Atribuir maior importância ao protagonismo das famílias rurais que ao paternalismo do Estado. O desenvolvimento deverá ser promovido basicamente com a iniciativa, os recursos e os esforços de todos os membros das famílias e da comunidade. Eles devem entender que a solução dos seus problemas não depende tanto de uma determinada autoridade de governo, mas do esforço individual e coletivo de todas as famílias rurais; porque na realidade o desenvolvimento rural não ocorre nos ministérios de economia, nos parlamentos ou nos bancos agrícolas, mas sim nos lares, sítios e comunidades rurais; a partir de mudanças de atitudes que se iniciam na mente das famílias.

O Estado não pode e não deve fazer pelos agricultores o que eles mesmos podem executar; se o faz não terá tempo nem recursos para proporcionar-lhes os conhecimentos que os emancipariam da dependência do paternalismo estatal. O Estado deve ajudar com conhecimentos àquelas pessoas que querem ajudar-se a si mesmos, com o seu próprio esforço.

No entanto, afirmar que as famílias rurais devem protagonizar o seu autodesenvolvimento, não significa que na atualidade elas estejam preparadas, motivadas e capacitadas para fazê-lo. Esta emancipação deverá ocorrer de maneira paulatina; e para que elas possam assumir em forma gradual a responsabilidade pelo seu próprio desenvolvimento, necessitam que os governos as capacitem, organizem e ofereçam oportunidades perduráveis e não paternalismos efêmeros. Se os agricultores não desenvolvem a sua capacidade de autogestão, autodependência e cooperação mútua seguirão sempre dependentes do Estado; este continuará atendendo as mesmas pessoas ano após ano, sem conseguir sua emancipação e, em conseqüência, sem poder deslocar a assistência governamental a novos beneficiários e sem possibilidade de ampliar a sua cobertura.

Consequentemente, mais importante que conseguir que os agricultores tenham acesso ano a ano aos fatores escassos e externos às suas propriedades, é capacitá-los e organizá-los para que se tornem auto-suficientes e menos dependentes de tais fatores. Ao emancipar-se da dependência de ajudas externas, perderão menos tempo em longas caminhadas, viagens, trâmites e esperas que utilizam para adquirir insumos prescindíveis, obter empréstimos, pedir ajudas, etc.

3) Promover o desenvolvimento de dentro para fora e de baixo para cima, estimulando e fomentando a auto-suficiência individual e coletiva. Basear o desenvolvimento nas potencialidades e oportunidades internas; isto é, naqueles recursos que os agricultores realmente possuem em seus sítios (geralmente mão-de-obra, terra e alguns animais), em vez de insistir nas debilidades e restrições externas (no que eles não possuem).

O desenho no.2 indica que o agricultor geralmente tem mais recursos do que ele é capaz de usar racionalmente e administrar eficientemente. Uma estratégia realista e de bom senso deveria começar por incrementar a produtividade dos três recursos recém-mencionados; começando pela capacitação da mão-de-obra para elevar a sua própria produtividade e para que esta desenvolva o potencial produtivo da terra; esta por sua vez, ao melhorar sua fertilidade e elevar sua produtividade, produzirá maiores excedentes, que alimentarão a família e os animais. A mão-de-obra, ao estar bem alimentada, terá melhor saúde e maior produtividade; os animais por sua vez, ao estar bem alimentados, melhorarão o seu desempenho reprodutivo e através deste também o produtivo. Com isto se desencadeará um círculo virtuoso, no qual os três fatores que eles possuem gerarão as riquezas e a renda, com os quais os agricultores poderão adquirir os fatores que eles não possuem.

4) Valorizar mais o pragmatismo realista das soluções endógenas que o perfeccionismo utópico das soluções exógenas. Para os agricultores, mais vale uma solução modesta que esteja ao seu alcance imediato (e que no futuro possa ser melhorada), que outra ideal, porém não alcançável (quer seja no presente ou no futuro); mais valem as medidas imperfeitas que a estagnação e o imobilismo.

5) Não superestimar a importância dos recursos e serviços externos para evitar que o ser humano – quem deveria ser o agente e beneficiário do seu desenvolvimento – se transforme em objeto e vítima do subdesenvolvimento. Ao esperar que outros lhe proporcionem os recursos e adotem as decisões, o produtor não se sente comprometido com a solução dos seus próprios problemas: se paralisa se imobiliza, se descompromete e por fim cai na resignação e no fatalismo. O paternalismo (doar ou fazer coisas) reforça a atitude de acomodação e o sentimento de incapacidade e impotência dos agricultores para solucionar os seus próprios problemas.

Se não se oferece às familias rurais efetivas oportunidades para que tomem consciência do seu próprio potencial e das potencialidades do seu meio, que estejam motivadas e desejosas de se superar e capacitadas para solucionar tais problemas, simplesmente não haverá desenvolvimento. Ou os próprios afetados pelos problemas do meio rural os solucionam de maneira protagônica e basicamente com os seus próprios meios, ou tais problemas dificilmente serão solucionados.

As pessoas que propõe uma estratégia de desenvolvimento agropecuário, baseada fundamentalmente em recursos e soluções externos às propriedades e comunidades rurais, geralmente estão propondo utopias inatingíveis; além do mais:

a) com a boa intenção de favorecer aos mais pobres, de fato os estão prejudicando, porque fomentar um modelo exógeno significa favorecer aos mais favorecidos e privilegiar aos já privilegiados (os quais com maior facilidade têm acesso aos fatores externos e escassos); e

b) estão subestimando a capacidade potencial das famílias rurais para solucionar problemas que são seus e que devem ser solucionados por elas mesmas. Apesar das suas boas intenções, os defensores do desenvolvimento exógeno de fato estão prejudicando as famílias rurais; ao criar-lhes ilusões de que outras pessoas ou instituições solucionarão as suas dificuldades, desvia as suas atenções e contribuem para que elas não assumam a responsabilidade pela solução dos seus próprios problemas; e contribuem para que as famílias rurais continuem pensando que “se as causas são externas, as soluções e os recursos também deverão vir de fora”; é necessário entender que a participação popular não é só um direito, mas também um dever de todos os membros de cada família rural.

Muitas das suas dificuldades poderiam ser superadas pelas próprias famílias rurais, independente das ajudas que proporcione ou das decisões que adote o governo; não se deve superestimar a importância de tais ajudas.”Na medida em que o pobre entenda que mesmo que careça de riquezas materiais próprias, existem ao seu redor recursos que pode aprender a utilizar; que capte o valor da solidariedade bem orientada; que aprenda as noções mínimas de um manejo técnico dos recursos, ferramentas e matérias primas a sua disposição; que espere de si mesmo e não das esmolas ou ajudas, então e só então darão resultados os planos para lhe ajudar a solucionar os seus problemas”.

Em outras palavras, os agricultores deveriam colocar menos ênfase na espera de uma pouco provável ajuda externa e mais ênfase em uma segura possibilidade de melhorar a eficiência interna de suas granjas e comunidades.

6) Eliminar as causas que originam os problemas, se é possível de uma só vez para que não seja necessário corrigir ano a ano as suas consequências. Por exemplo, capacitar aos agricultores para que melhorem a produção de forragens a nível de propriedade, em vez de conceder-lhes ad infinitum empréstimos para que comprem rações e concentrados; capacitá-los para que produzam com eficiência, reduzam custos de produção e incrementem preços de venda para tornar-se rentáveis, sem necessidade de que o Estado tenha que corrigir as consequências da baixa rentabilidade com subsídios; atacar as causas e não os sintomas.

7) Partir do conhecido ao desconhecido; da árvore para a floresta e não da floresta para a árvore. Iniciar pela solução dos problemas mais simples e de menor custo e avançar paulatinamente para aqueles mais complexos e de maior custo; existem várias soluções que custam pouco, porém rendem muito. A solução dos problemas mais simples, geralmente exige pouca capacitação, é de menor risco e requer menor quantidade de recursos; em tais circunstâncias, é mais fácil e provável que os agricultores se decidam a enfrentá-los e que tenham êxito em suas iniciativas.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s