O Livro dos Pobres Rurais – Capítulo VIII

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

A TECNIFICAÇÃO DA AGRICULTURA COMO REQUISITO PARA O DESENVOLVIMENTO RURAL

Nos capítulos anteriores se tratou de demonstrar que os pequenos agricultores, apesar das suas reconhecidas restrições têm reais possibilidades de melhorar em forma muito significativa a sua produção, produtividade e organização, e como conseqüência a sua renda; isto é, se tratou de demonstrar que eles podem promover o seu desenvolvimento econômico. Não obstante, isto não é suficiente; alcançar tal desenvolvimento é somente um meio (e de certo modo uma estratégia) para conseguir o objetivo final que é o desenvolvimento rural, entendido como o melhoramento das condições econômicas, sociais, culturais e políticas de todos os habitantes do meio rural.

Neste documento se enfatiza e prioriza o desenvolvimento econômico pelas seguintes razões:

a) A melhoria das condições de vida dos agricultores exige o acesso a melhor habitação, alimentação, saúde, educação, vestuário, etc; para consegui-lo não só é necessário capacitar as familias rurais nestes aspectos de economia doméstica, mas também é imprescindível aumentar a sua renda para que possam ter acesso a tais melhoramentos. Sem recursos financeiros adicionais será muito difícil alcançar o bem estar familiar e conseguir o desenvolvimento social.

b) A fonte geradora de renda para a maioria dos habitantes rurais é a atividade agropecuária. De sua eficiência produtiva, gerencial, comercial e organizacional, dependerá o nível de renda das famílias rurais; isto é, da mesma forma como não pode existir desenvolvimento social sem desenvolvimento econômico, tampouco pode existir este último sem uma agricultura eficiente e rentável.

c) Duas importantes aspirações sentidas pela maioria das famílias rurais são obter sua segurança alimentar e aumentar a renda com um mínimo de riscos. Começar por satisfazer estas aspirações sentidas e conseguir que elas mesmas o façam através de ações concretas é uma interessante estratégia para romper o círculo vicioso do subdesenvolvimento. Uma vez dado este primeiro passo, os agricultores sentirão que, se eles foram capazes de solucionar os seus problemas alimentares e aumentar a sua renda, também serão capazes de solucionar outros problemas que os afetam; com isto aumentarão sua autoconfiança e ampliarão o seu horizonte de aspirações.

A partir destes avanços ocorrerá uma real mudança de atitudes e de valores, os quais são importantes componentes do desenvolvimento cultural. No entanto, é difícil conseguir estas mudanças de atitudes simplesmente com propostas teóricas e abstratas; é mais fácil atingi-las através de atividades concretas, as quais têm uma grande força motivadora; conseguir que os agricultores aumentem a sua produção, sua produtividade e sua renda é uma forma concreta (não retórica) de elevar a sua autoconfiança, de promover mudanças de atitudes e de conseguir que eles se motivem para novas e permanentes iniciativas.

d) Ao atingir o desenvolvimento agropecuário, não só experimentarão as mudanças de atitudes mencionadas no item anterior, como também se darão conta de que alguns problemas produtivos e econômicos não podem ser solucionados em forma individual e sem ajudas externas. Por esta razão, compreenderão a necessidade de organizar-se para canalizar as suas demandas, fortalecer-se como grupo, desenvolver sua liderança e participar na tomada de decisões sobre os problemas que os afetam. Ao fazê-lo estarão dando um importante passo para o seu desenvolvimento político, no sentido de conseguir que o governo adote decisões e execute serviços e obras de infraestrutura que respondam àquelas demandas dos habitantes rurais que eles não podem satisfazer por si mesmos. A participação dos pequenos agricultores na tomada de decisões do governo é muito importante porque, enquanto estas continuarem sendo adotadas exclusivamente pelas pessoas que têm o saber, o poder e os recursos, as que não os têm seguirão não os tendo.

Nos capítulos anteriores se mencionou que o Estado não está em condições de oferecer todos os componentes do modelo clássico de desenvolvimento agropecuário à totalidade dos agricultores, (crédito rural, fornecimento de insumos e equipamentos, garantia de preços e de comercialização, obras de irrigação, armazenagem, caminhos vicinais, instalação de agroindústrias, etc); simplesmente porque não dispõe de recursos suficientes para fazê-lo. Esta restrição será muito maior se aos componentes do desenvolvimento agropecuário recém-mencionados se lhes agrega aqueles relacionados com o desenvolvimento social (escolas, postos de saúde, moradia, comunicação, geração de empregos, lazer, etc.).

Então cabe perguntar quem financiará estes serviços e a infraestrutura de natureza social?

Dispõe o Estado dos recursos para poder oferecer todos os componentes do desenvolvimento agropecuário e também os do desenvolvimento social antes mencionado a todas as famílias rurais?

A situação de escassez de recursos públicos para promover o desenvolvimento econômico e social do meio rural se complica ainda mais devido ao rápido êxodo rural e a conseqüente urbanização dos países da Região. Os habitantes urbanos, que atualmente representam os 75% da população latinoamericana, aumentarão cada vez mais. Eles estão melhor organizados e seus problemas são mais visíveis, porque estão mais próximos à vista das autoridades que tomam as decisões políticas. Eles pressionarão para que os governos canalizem os investimentos públicos para a solução dos seus problemas e lhes assegurem alimentos a preços compatíveis com os baixos salários da maioria urbana, prejudicando ainda mais os débeis, dispersos e menos visíveis agricultores.

As freqüentes autorizações que os governos concedem para importar alimentos quando os preços dos produtos agrícolas nacionais sobem de preço, confirmam a discriminação positiva em prol dos consumidores (maioria) e a discriminação negativa contra os produtores (minoria). Entre importar um produto de grande consumo popular que contribua para reduzir os gastos com a alimentação de 100% dos habitantes de um país ou deixar de fazê-lo para proteger a uns 5% dos habitantes que se dedicam a cultivar tal produto, os governos estão cada vez mais optando pela primeira alternativa. Infelizmente é cada vez menos provável que os governos fixem políticas setoriais favoráveis aos agricultores se elas se contrapõem às políticas econômicas globais (por exemplo, elevar o valor do dólar para favorecer a agricultura de exportação).

As pressões dos habitantes urbanos atuarão contra a desejada canalização de recursos destinados à solução dos problemas dos habitantes rurais. Tudo indica que os recursos escassos fluirão para os primeiros, a menos que os segundos se organizem e fortaleçam o seu poder político. Isto possibilitaria reverter a tendência e faria com que o Estado efetuasse os investimentos necessários para eliminar no campo as causas do êxodo rural, em vez de tentar tardiamente e sem êxito corrigir as suas consequências nas cidades (desemprego, marginalidade, fome, falta de serviços, etc). Ainda que se reconheça que muitos dos recursos e serviços necessários para o desenvolvimento rural deveriam ser proporcionados pelo Estado, tais recursos serão sempre insuficientes; a menos que os agricultores pratiquem uma agricultura rentável que gere recursos adicionais aos proporcionados pelo governo, e participem em forma protagônica e organizada na solução dos seus próprios problemas.

Pelas razões antes analisadas, uma agricultura eficiente e rentável é uma condição para conseguir o desenvolvimento rural. Não reconhecê-lo seria criar nos agricultores falsas expectativas, que os estimulariam a seguir esperando recursos e serviços externos, os quais provavelmente nunca chegarão em quantidade suficiente para solucionar todos os seus problemas.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s