O CAMINHO SE FAZ AO CAMINHAR

DESAFIOS DA ECONOMIA POPULAR SOLIDÁRIA

Prof. Armando de Melo Lisboa (Economia/UFSC)

 alisboa@mbox1.ufsc.br

O CAMINHO SE FAZ AO CAMINHAR

Hoje encontramos um espaço propício para construção de alternativas econômicas. As pessoas estão desamparadas pelo mercado, desprotegidas pelo Estado e desiludidas com as utopias tradicionais. No entanto e necessário ter muito cuidado, mesmo porque se trilha caminhos novos.

Constatar as incontáveis experiências populares nesta superação nos desafia a pensar seu significado mais amplo. As iniciativas surgem a partir do local, imposto pela própria urgência dos problemas da sobrevivência. As diferenças grandes. Numa ponta temos um mercado financeiro globalizado e para poucos, noutra ponta temos os excluídos por este mercado que reconstroem sistemas de economia solidária e recriam moedas locais. O desafio: como construir um outro mercado, socializado? Diante do descaso das políticas públicas as experiências solidárias alternativas assumem uma forte alternativa, ao demonstrarem que outra humanidade é possível na ótica do mercado e das relações sociais e de trabalho. Aos poucos vemos uma verdadeira corrida em busca dos caminhos solidários. Uma moda. Pode ser. Mas também uma verdadeira revolução social. E somos privilegiados por estarmos vivendo este importante momento social, político e econômico com base em princípios da ética e da cooperação solidária.

 A Economia Popular Solidária surge a partir de iniciativas de base comunitária, construídas por organizações vinculadas aos setores populares. Trata-se de atividades produtivas que tanto se inserem no mercado quanto constituem redes de comercialização próprias / solidárias. O campo da Economia Popular Solidária, baseado na pequena empresa comunitária, na agricultura familiar, no trabalho doméstico, autônomo, nas cooperativas e empresas autogestionárias. Estas experiências aos poucos supera o desafio do mercado e viabiliza sua competitividade no mesmo, constituindo-se como uma forte alternativa de enfrentamento a exclusão social.

 As atividades que dão sustentabilidade a Economia Popular Solidária não são de hoje, e somente não eram visíveis para o olhar da razão econômica e pelas políticas públicas distorcidas e distanciadas da sociedade. Os empreendimentos de Economia Popular Solidária, são atividades (formais e informais) comunitariamente inseridas, exercitados através de laços culturais e de relações com uma forte perspectiva de gênero. Não motivadas pela idéia de maximização do lucro (o que não significa que este não esteja presente), não totalmente sujeitas ao mercado (mas interagem com o mesmo) e a controles burocráticos, por meio das quais as pessoas satisfazem suas necessidades cotidianas de forma auto sustentável.

ECONOMIA POPULAR SOLIDÁRIA – EIXO ESTRATÉGICO PARA O DESENVOLVIMENTO

Faz-se necessário colocar de forma urgente na agenda do desenvolvimento o potencial real do setor de Economia Popular Solidária como uma alternativa sustentável na superação e enfrentamento das dificuldades sociais. Trata-se da dinamização e do entendimento das cadeias de solidariedade, de pensadas como um espaço econômico de alternativas societárias a partir do qual podem se formular políticas públicas para o desenvolvimento local.

Para cumprir a sua missão de ser uma alternativa à exclusão, ela deve se configurar enquanto uma política de desenvolvimento. Esta deve ser construída articulando as redes da Economia Popular Solidária e restabelecendo elos com os demais setores da economia como parte de um projeto de integração ativa nos mercados.

 As redes de Economia Popular Solidária devem examinar o ciclo inteiro de cada segmento produtivo, buscando sempre a possibilidade de completar todo o circuito econômico onde estiverem inseridas. Trata-se de estabelecer uma rede entre os empreendimentos de Economia Popular Solidária envolvidos dentro de cada cadeia produtiva, incluindo a ponta final dos consumidores motivados pela prática do consumo solidário, que se guiam pelo princípio de consumir preferencialmente aquilo produzido pelos empreendimentos de economia popular solidária. Esta visão tem sua importância para que os valores e princípios que norteiam a Economia Popular Solidária não sejam consumidos pelo sistema capitalista, mas sim, continuamente realimentarem os empreendimentos, potencializando toda a rede.

 A Economia Popular Solidária trata-se de uma economia comprometida com seu entorno, com a comunidade na qual está inserida, e que utiliza fundamentalmente de recursos localmente disponíveis. O caráter territorial da Economia Popular Solidária impõe-se uma vez que ela origina-se em resposta à exclusão. É uma construção que promove a cidadania, centrada na melhoria da qualidade de vida, no desenvolvimento humano, no benefício real que pode produzir para pessoas concretas (e não nos fluxos dos valores financeiros em circulação), adaptada as potencialidades e especificidades das condições locais.

 Está cada vez mais solidamente alicerçada nas dinâmicas locais / regionais de desenvolvimento, fortalecendo-se como uma verdadeira política de enfrentamento da pobreza e a exclusão social. A base para estabelecer parcerias e soluções que o mercado globalizado não propicia, é a evidência de que as exigências da competitividade que envolve as dimensões social, ambiental e econômica predominam no longo prazo, requerendo uma sociedade mais coesa e com maior qualidade de vida, solidificando-se como um sistema aberto.

 A construção do marco legal para a economia social exige uma ampla articulação de forças. Assim, além da Economia Popular Solidária buscar se consolidar enquanto um setor sócio-econômico próprio, ela deve ser um ator ativo na construção do campo mais amplo da economia social, o que exige que ela saia dos seus interesses imediatos, deixe de olhar apenas para o seu umbigo, e saiba quebrar os preconceitos que hoje dificultam estabelecer um diálogo mais amplo com o sistema cooperativista tradicional, através do enfrentamento propositivo de idéias e conceitos.

OS PERIGOS DO ESTATISMO E O CANTO DA SEREIA

Por surgir da matriz da sociedade civil e não do Estado, a Economia Popular Solidária de modo geral está longe das instâncias governamentais. Aqui reside o desafio das políticas públicas. Para se constituir como um sistema alternativo para a massa dos excluídos e para os impasses da reestruturação produtiva e preciso discutir e disputar fortemente as políticas públicas. Isto porque a Economia Popular Solidária carece, como qualquer outro setor econômico, de linhas de crédito, políticas tecnológicas, fiscais e de capacitação para atenderem às demandas provenientes da dinâmica do desenvolvimento local, que vem sendo gestada pelos grupos de economia solidária, dentro da perspectiva da discussão participativa.

 Mesmo em condições econômicas, sociais e políticas desfavoráveis, estes empreendimentos vencem com uma enorme vitalidade e superação dos obstáculos. Como seria a realidade destas iniciativas se elas tivessem o suporte dos fundos públicos (e não as atuais migalhas) e fossem apoiadas por efetivas políticas de desenvolvimento? Por outro lado, não depender de políticas macro-econômicas, aponta para o grande significado da mesma: através dela os cidadãos se empoderam e retomam a economia nas suas mãos.

 Os mercados representam também inúmeras oportunidades. A Economia Popular Solidária trabalha com mercados crescentemente segmentados e com um imenso potencial de expansão. São mercados que valorizam produtos com referência cultural, como produtos ecológicos e com selo social, com respeito aos direitos do cidadão. Além disto, o fortalecimento dos mercados locais e a constituição das redes de comercialização e de um mercado solidário entre os empreendimentos da Economia Popular Solidária, abre e garante nichos de mercado que, assegurando seu próprio espaço sócio-econômico, darão força e maior autonomia ao setor diante da economia capitalista excludente.

 Não custa repetir o óbvio: o espaço do mercado, das trocas, sendo tão antigo quanto à própria humanidade, é anterior ao capitalismo e deverá superá-lo. Não existe a competição isolada, de forma pura, bem como a cooperação não se realiza num mundo angelical. Assim como a cooperação está presente na maléfica competição capitalista, a competição está presente de forma positiva na cooperação.

 O bom senso e a pratica da Economia Popular Solidária indica que buscar uma orientação mais regionalista não significa se furtar à globalização, mas apoderar-se desta soberanamente, pois apenas queremos que seja justa, o que significa priorizar a produção doméstica voltada para mercados internos. Não se trata de ser contra os mercados, mas sim de fazer face ao desafio da construção social dos mercados, de forma a que os mesmos sirvam às comunidades, as pessoas.

CONCLUSÃO

A resposta a este novo paradigma reside na construção de redes de troca solidária entre os empreendimentos de forma a ir configurando outro mercado. Afirmar a solidariedade dentro da economia converge cada vez mais com a importância dos valores humanos e sociais para uma transformação verdadeira e duradoura.

 A construção da solidariedade exige uma determinação pessoal de mudança, conjuga-se com responsabilidade e reciprocidade, com sensibilidade e cuidado para com todas as formas de vida. Emerge uma nova sociabilidade e uma nova ética, as quais tanto ainda podem ser apropriadas pelas forças da globalização neoliberal e servirem para aprofundar o abismo das relações de trabalho, quanto serem o nascer de uma nova relação social de trabalho e geração de renda e qualidade de vida.

 Muitos são os desafios da Economia Popular Solidária hoje: alguns são de capacidade empresarial, outros são de ordem política e ética. Entretanto, a dimensão da formação de valores, da educação para a cooperação, sobrepõe-se a todos. E necessário e urgente investir na educação solidária.

 As experiências de cooperação alternativas entre produtores e / ou consumidores , quando não pautam a mudança do estilo de vida e a ruptura com o produtivismo, acabam por ficarem prisioneiras da lógica capitalista. Os valores da autonomia, da cooperação, da democracia ou mesmo do consumo solidário, não são suficientes para quebrar o espírito capitalista e subordinar, assim, o mercado e a economia às necessidades da sociedade. É o desafio ético, de construir novos estilos de vida, de assumir a prática do consumo solidário, dentro de uma visão econômica mais abrangente, que nos permitirá voltar a pensar e praticar a cultura da cooperação para superarmos as dificuldades comuns.

 A sociedade é desenhada para ajudar os que se encontram dentro dela, e não ao contrário, onde as pessoas e os grupos humanos são apenas meios para servir à lógica instrumental. Este princípio, regido pelo poder compartilhado, é chave para a se estabelecer a Economia Popular Solidária, pois esta prática permite romper com a lógica capitalista que capturou os corações e mentes da modernidade e, ao mesmo tempo possibilita visualizar as potencialidades das economias locais.

 Este novo pensar e agir pressupõe a mudança no estilo de vida, tema da maior importância na construção de uma nova matriz social e econômica. A discussão sobre os novos estilos de vida deve estar compreendida no horizonte das profundas mutações civilizatórias contemporâneas, uma vez que é fundamental o enfrentamento com as raízes da crise societária atual e a delimitação e a superação da racionalidade individual. Estamos em rede, em campos mais amplos que, tanto nos superam, quanto são por nós construídos, e que se transformam e nos transformam na medida em que nos transformamos.

 A Economia Popular Solidária faz parte de movimentos sociais mais amplos, de uma intensa corrente humanitária que luta pela reintegração da atividade econômica nas relações sociais através da socialização do direito a terra, ao trabalho e ao dinheiro. Superar a desordem do mundo do trabalho é o grande desafio deste final de milênio.

 Em que medida a Economia Popular Solidária pode contribuir? Representa efetivamente uma alternativa nova, ou será que ela não se reduz a uma velha forma de incorporar uma parte da humanidade através do trabalho precário, reproduzindo a divisão social? O que impede à racionalidade hegemônica considerar e valorizar o modo de vida dos marginalmente integrados?

Possibilita a Economia Popular Solidária ser um marco conceitual novo para pensar a superação do utilitarismo-produtivista, ou significa a mesma um ajuste subordinado das sociedades periféricas à globalização, se restringindo à soluções paliativas que possibilitarão a sustentabilidade do modo de vida consumista dos mais ricos?

Estas são questões centrais que a Economia Popular Solidária está desafiada a responder seja através do poder público ou a partir dos movimentos sociais que a representam.

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