O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO X PARTE I

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

ALGUNS OBSTÁCULOS QUE DIFICULTAM A APLICAÇÃO DO MODELO PROPOSTO

Quando as propostas em prol de um desenvolvimento agropecuário mais endógeno e menos dependente de fatores externos começaram a surgir na América Latina, seus postulados tinham pouca credibilidade já que soavam a utopia ou lirismo. Contribuíram para este ceticismo a radicalização e a polarização de certas propostas, algumas ingênuas. Como por exemplo, afirmar que se poderia alimentar as multidões das grandes metrópoles latinoamericanas, abastecer o parque industrial e gerar os excedentes que os países necessitam exportar para financiar seu desenvolvimento, sem utilizar fertilizantes sintéticos, pesticidas, tratores, irrigação, tecnologias de ponta, etc. e outras carregadas de forte conteúdo emocional e ideológico. Os interesses contrários atuando de má fé, se aproveitaram das polarizações e da aparente falta de fundamentação científica de tais propostas, para desqualificá-las e desacreditá-las.

Como conseqüência das contradições e do esgotamento do modelo clássico de desenvolvimento agropecuário, felizmente têm surgido nos países da Região propostas mais consensuais e neutras que buscam diminuir as ideologizações, polarizações e emocionalismos antes mencionados. Estas novas propostas, ao resgatar algumas práticas autóctones e potencializá-las com o auxílio dos avanços científicos mais recentes, tratam de conciliar, em grande parte, as necessidades mais imediatas dos agricultores com as reais possibilidades dos governos em satisfazê-las. O maniqueísmo entre a agricultura orgânica e a da revolução verde está perdendo terreno e credibilidade muito rapidamente. As tendências mais modernas e fidedignas advogam por uma complementação entre ambas, extraindo de cada uma delas os aspectos positivos que inegavelmente ambas possuem. Este documento sugere que se inicie a modernização com as tecnologias da agricultura orgânica, não só para contribuir à sustentabilidade e à equidade, como também para que os chamados insumos modernos da revolução verde, quando disponíveis, se tornem muito mais eficazes e eficientes.

São tantas e tão óbvias as vantagens desta mescla de tecnologias da agricultura orgânica com as da revolução verde, que a adoção de um modelo menos polarizado de tecnificação da agricultura deveria haver-se generalizado rapidamente para contribuir a mudar as atitudes dos profissionais e técnicos e, através deles, dos agricultores. Todavia, a aplicação de um modelo mais consensual tem sido dificultada, entre outras, pelas razões mencionadas a seguir:

1º. Obstáculo

A formação dos profissionais de ciências agrárias. O ensino universitário está fortemente inspirado na realidade do mundo desenvolvido, no qual o capital é abundante e a mão-de-obra é escassa. Nos países da América Latina e Caribe, ocorre exatamente o contrário; consequentemente os conteúdos do ensino das faculdades, geralmente não são adequados às nossas circunstâncias e, muito especialmente, às da grande maioria dos pequenos agricultores. “Uma escola ou universidade de um país em desenvolvimento é considerada tanto mais adiantada ou progressista quanto mais proximamente simule em seus programas de ensino e pesquisa, o que se faz nas instituições similares de outros países desenvolvidos, sem importar que isto não responde em absoluto às necessidades do próprio país.

Desta forma, o profissional se prepara só para atender às necessidades de um pequeno setor formado pelas grandes unidades de produção, as que também seguem o compasso dos avanços tecnológicos dos países desenvolvidos. A conseqüência final é que o pequeno produtor que, como vimos antes, representa um setor majoritário, se encontra cada vez mais relegado e arraigado a seus sistemas tradicionais de produção que sem ser muito eficientes, lhes oferecem segurança. Uma ação efetiva para melhorar a produção a nível de pequenas propriedades demanda mudança de enfoque na formação dos profissionais que devem atuar como instrumentos de desenvolvimento. Os programas de ensino devem adequar-se às necessidades da sociedade a que vão servir os futuros profissionais. Isto não significa que tenham que sacrificar a qualidade acadêmica e a base científica por se tratar de países em desenvolvimento. “Pelo contrário, se requer formar profissionais com um alto grau de preparação acadêmica, porém conscientes das necessidades da sua própria sociedade”

Durante a sua formação, os estudantes geralmente não têm a suficiente vivência da problemática do campo, nem possibilidades concretas de executar práticas agropecuárias diretamente nos sítios e comunidade rurais. Este desconhecimento se acentua devido a origem crescentemente urbana dos estudantes e docentes das faculdades e às restrições orçamentárias de tais instituições, as quais limitam suas possibilidades de levá-los ao campo. Devido aos conteúdos que as faculdades lhes ensinam estes profissionais não estão preparados para solucionar os problemas dos agricultores dentro da escassez e da adversidade produtiva; isto é, para solucioná-los com menos insumos, créditos, tratores, tecnologias de ponta e com menor dependência do Estado. Quando se vêem defrontados com as restrições, não dispõem dos conhecimentos necessários para solucionar os problemas ali indicados de forma endógena (com os recursos locais e com tecnologias menos dependentes de fatores externos); esta é a razão de fundo pela qual estes profissionais tendem a solicitar mais recursos e soluções externas preconizados pelos modelos clássicos de desenvolvimento agropecuário; e como geralmente não os obtêm, não conseguem transformar as realidades adversas ali existentes.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

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