O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO X PARTE III

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

ALGUNS OBSTÁCULOS QUE DIFICULTAM A APLICAÇÃO DO MODELO PROPOSTO

2º. Obstáculo

A influência dos fabricantes e provedores de insumos e maquinaria. Eles naturalmente têm interesse em vender mais fertilizantes, pesticidas, rações e máquinas agrícolas. Devido a que este modelo alternativo, não enfatiza o uso intensivo de bens que possam ser comercializáveis ou patenteáveis pelos grupos industriais, não conta então com o apoio dos mesmos. Os representantes destes grupos de interesses têm acesso e exercem forte influência nos governos, parlamentos, universidades, centros de pesquisa e meios de comunicação. É através dessas instituições que influenciam os formuladores e executores das políticas agrícolas dos países. Com estas variadas influências contribuem para que se crie a nível dos profissionais e agricultores, a equivocada convicção de que a única alternativa para desenvolver a agricultura é através do uso massivo de sementes de alto potencial genético, de fertilizantes, inseticidas, fungicidas, rações, tratores, etc., e que para fazê-lo possível se requer de abundantes créditos e subvenções.

É cada vez mais difícil encontrar no comércio especializado aqueles produtos que contribuam a emancipar aos agricultores da dependência de fatores externos; porém é cada vez mais fácil encontrar aqueles que perpetuam tal dependência. Mesmo nos rincões mais isolados existe um local comercial que fornece: sementes híbridas (não as de variedade), fertilizantes compostos (mas não existem sementes de espécies para adubo verde que os tornariam menos dependentes dos fertilizantes químicos); rações balanceadas para todas as espécies animais e para todas as etapas de desenvolvimento (porém é difícil encontrar sementes de espécies que lhes permitiriam melhorar as pastagens ou produzir rações caseiras); fertilizantes nitrogenados sintéticos (porém é difícil encontrar inoculantes), etc. Quer dizer, tudo contribui para manter o agricultor dependente de comprar, ano após ano, os insumos industrializados, em vez de produzir sucedâneos em sua própria propriedade. Quando os agricultores querem emancipar-se encontram-se ante a situação de que as galinhas de granja não chocam (porém os agricultores facilmente encontram pintos de um dia ou incubadoras);que existem sementes de melancia, cujos frutos não têm sementes; que não encontram os ingredientes para preparar a mistura mineral caseira para os seus animais (no entanto encontram, com muita facilidade e em qualquer lugar os sais minerais compostos industrializados).

Ante o lamentável debilitamento dos serviços oficiais de extensão rural, muitos extensionistas já não chegam com sua mensagem educativa (e não comprometida comercialmente) às propriedades e lares rurais; No entanto, chegam os vendedores de insumos, Aos quais se costuma denominar, de modo equivocado, agentes privados de assistência técnica ou, pior ainda, agentes privados de extensão rural.e também as permanentes mensagens radiofônicas e da televisão que estimulam o uso de agroquímicos e maquinarias. Se esta situação não for revertida a agricultura será crescentemente orientada em função dos interesses do setor industrial/comercial e não em função dos interesses do setor agrícola; os interesses de ambos setores não só são diferentes, como costumam ser antagônicos e conflitivos. É por este motivo que alguns serviços oficiais do Estado não devem ser substituídos por serviços de empresas privadas com fins de lucro; a responsabilidade pela assistência técnica deveria, na medida do possível, ser gradualmente assumida pelos próprios agricultores organizados, naturalmente depois que o Estado lhes proporcione de forma paulatina as condições (de capacitação e organização) para que eles constituam os seus próprios serviços e com isto diminuam suas dependências externas (do Estado e das empresas privadas com fins de lucro).

Esta influência da indústria produtora de insumos e equipamentos é ainda mais grave na atualidade, devido a crise financeira das instituições oficiais de pesquisa e das universidades; estas, ao não dispor de recursos públicos suficientes para gerar novas tecnologias, recorrem ao apoio financeiro dos fabricantes de fertilizantes, rações, equipamentos, tratores, etc. Não é de se estranhar, então, que as novas tecnologias não apontem, como deveriam fazê-lo, a reduzir o uso de insumos e equipamentos de alto custo. Dificilmente um fabricante de pesticidas financiaria uma pesquisa que contribuiria para diminuir o seu uso; dificilmente um fabricante de fertilizantes nitrogenados contribuiria para a geração e difusão de uma tecnologia sobre adubos verdes ou rotação de culturas com leguminosas previamente inoculadas. Devido às restrições orçamentárias das associações de profissionais e das instituições oficiais de apoio à agricultura, um crescente número de congressos e seminários destinados a discutir políticas agrícolas é financiado pelos mencionados fabricantes de insumos e equipamentos; nestas condições é fácil entender a influência que exercem nas discussões e deliberações de tais eventos. As pessoas não comprometidas por estes interesses meramente mercantis deverão estar advertidas para não se deixar influenciar por postulados que, ainda que em aparência, estão preocupados com a sorte dos agricultores, de fato estão defendendo outros interesses.

Esta influência está ampliando-se porque, devido à crise das instituições do Estado, as próprias empresas privadas estão paulatinamente encarregando-se de gerar novas tecnologias. Existe uma tendência a nível mundial nos fabricantes de fertilizantes e inseticidas a dedicar-se também à produção de sementes e à pesquisa em biotecnologia. Em tais condições, é muito pouco provável que as empresas privadas fabricantes de herbicidas, inseticidas, fungicidas e fertilizantes se dediquem a gerar novas plantas ou a produzir sementes com a preocupação de que sejam menos dependentes dos referidos insumos. Além do mais, é fácil entender que os pequenos agricultores (que não compram ou compram poucos insumos) não sejam a clientela preferencial das instituições privadas com fins lucrativos, que geram e difundem tecnologias agropecuárias. Esta é um importante razão adicional para que a privatização dos serviços do Estado tenha certos limites porque, do contrário, os pequenos agricultores serão ainda mais marginalizados e o crescimento com equidade continuará sendo apenas uma declaração de boas intenções.

3º. Obstáculo

Os agricultores carecem de autênticos representantes que interpretem as suas necessidades e interesses. Devido a sua fragilidade e a falta de lideranças genuínas, se tornam vulneráveis a propostas populistas de pessoas que estão mais preocupadas em conquistar simpatias (votos) que em solucionar os problemas das famílias rurais. Costumam ser vítimas da demagogia dos maus políticos os quais dizem aos agricultores apenas o que estes querem ouvir (por exemplo, que eles só poderão ter rentabilidade se o governo os subsidiar) e não o que eles deveriam ouvir (que se eles fossem mais eficientes seriam menos dependentes dos subsídios); com tais procedimentos os induzem a equívocos e desviam sua atenção das verdadeiras causas dos seus problemas e das formas de solucioná-los com realismo e objetividade. Estas propostas populistas geralmente dão a entender às famílias rurais que os seus problemas se devem exclusivamente a fatores externos, tais como:

– insuficiência de recursos produtivos;

– falta de decisões políticas;

– falta de leis e reformas estruturais;

– inadequação do regime ou sistema político;

– injustiça nas relações de intercâmbio a nível internacional;

– falta de créditos e subvenções (aos insumos e aos produtos).

Sem desconhecer a existência e incidência de alguns dos fatores externos antes mencionados, não se deve superestimar a sua importância, porque se os problemas internos descritos nos itens 3.2.1, 3.2.2 e 3.2.3 do capítulo 3 não forem solucionados, a eliminação dos obstáculos externos terá pouca utilidade e eficácia. Adicionalmente, os postulados populistas costumam ressaltar uma suposta (ainda que muito discutível) racionalidade e eficiência dos camponeses na alocação de recursos produtivos e na aplicação de tecnologias. Com isto concluem, muitas vezes de forma equivocada, que os seus problemas se devem a falta de recursos e não de conhecimentos. Ao superestimar a importância do fator que eles não podem manejar (recursos) e subestimar a importância do fator que podem manejar (conhecimentos) apenas contribuem a manter os agricultores em atitudes de passividade e fatalismo, devido a que os levam a pensar que:

i) se as causas dos problemas são externas e se os recursos que eles dispõem são insuficientes, a conclusão lógica é que tanto as soluções como os recursos para superar tais problemas deverão ser externos e que, enquanto estes não chegarem, os agricultores não poderão fazer nada em prol da solução dos seus próprios problemas; e

ii) se eles são racionais na alocação dos seus recursos e eficientes na adoção de tecnologias, não requerem novos conhecimentos, porque não necessitam introduzir mudanças administrativas e tecnológicas em suas propriedades.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

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