O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO XI PARTE I

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

COMO ENFRENTAR A ADVERSIDADE PRODUTIVA E A ESCASSEZ DE RECURSOS

Neste capítulo se tratará de demonstrar que:

a) alguns fatores de produção escassos podem ser substituídos por outros mais abundantes, sem perder eficiência produtiva e econômica;

b) certas tecnologias complexas e caras podem ser substituídas por outras mais simples e de menor custo;

c) vários insumos industrializados podem ser substituídos por sucedâneos produzidos dentro da propriedade;

d) alguns insumos industrializados podem ser eliminados ou fortemente diminuídos nos processos produtivos;

e) o uso de insumos externos pode ser diminuído sem reduzir os rendimentos que atualmente obtêm os agricultores;

f) os rendimentos podem ser aumentados mantendo o atual nível de utilização de insumos e os mesmos gastos; e finalmente

g) a adversidade físico produtiva e a escassez de recursos não são obstáculos insuperáveis que devam continuar mantendo os agricultores no círculo vicioso de miséria.

Para demonstrar estas asseverações, se analisarão os principais fatores que convencionalmente são apontados como restritivos e obstaculizadores do desenvolvimento agropecuário. Em cada caso se indicará um conjunto de alternativas que permitirá eliminá-los ou torná-los menos importantes e inclusive prescindíveis.

O QUE FAZER QUANDO A TERRA É INSUFICIENTE E DE MÁ QUALIDADE?

Os 13.500.000 pequenos agricultores da América Latina possuem uma superfície média de 11,2 hectares de terra, dos quais apenas 4,2 ha são cultiváveis e somente 3,3 ha estão realmente cultivados. Esta situação, comparada com a dos poucos proprietários de grandes extensões de terra, muitas vezes subutilizadas e ociosas, por si só justifica a urgente necessidade de que os pequenos agricultores se organizem e se mobilizem para conseguir uma distribuição mais justa e equitativa deste importante fator de produção. Todavia, enquanto se desenvolve tal esforço, é necessário adotar outras medidas paralelas, já que a insuficiente terra dos pequenos agricultores será ainda mais insuficiente se eles:

– continuarem utilizando apenas 80% da superfície que dispõem (4,2 hectares cultiváveis versus 3,3 hectares cultivados);

– não adotarem tecnologias capazes de aumentar a sua produtividade (rendimentos mais altos e maior número de colheitas por unidade de tempo).

É fácil constatar que a maioria das 13 alternativas indicadas no capítulo 5 contribuiria para contrabalançar os efeitos da insuficiente superfície de terra, se fossem devidamente adotadas. Infelizmente, ao não conhecê-las, ou não estar capacitados nem motivados para adotá-las, muitos agricultores continuam:

– preparando o solo de forma inadequada e fora de época;

– não adotando medidas elementares para manter ou recuperar a sua fertilidade;

– não ocupando-o durante todo o ano, mesmo que as condições climáticas o permitam;

– não adotando variedades de ciclo mais curto para que produzam, mesmo que o período de chuvas seja de curta duração;

– fazendo semeadura no lugar definitivo, em vez de fazer transplante, mesmo que a mão-de-obra não seja um fator limitante e certos cultivos permitam a adoção de tal tecnologia; fazendo transplante se poderia reduzir o tempo de ocupação da terra escassa e os gastos com capinas, fertilizantes, irrigação e agroquímicos;

– não cultivando espécies de maior densidade econômica ou variedades mais produtivas;

– não realizando os trabalhos agrícolas de forma correta e no momento oportuno;

– utilizando sementes de baixa qualidade e semeando-as com espaçamento inadequado ou não repondo, de imediato, as plantas que não tenham germinado;

– não enxertando e não podando as fruteiras, com repercussões negativas na precocidade, rendimento por planta e número de plantas por hectare;

– permitindo que as pragas, ervas daninhas e enfermidades reduzam o rendimento de suas culturas e criações;

– produzindo espécies menos eficientes por unidade de terra, de capital e de tempo (por exemplo: criando animais maiores em vez de animais menores(40*); animais menores em vez de leguminosas; cereais em vez de raízes e tubérculos, etc). Muitos produtores destinam uma significativa superfície de sua escassa terra a manter potreiros com baixíssima capacidade de suporte, em vez de dedicá-la a culturas tecnificadas de forrageiras de corte; com tal medida poderiam aumentar a produção de forragem por hectare e, com isto, economizar em cercas ou liberar parte da terra para outras culturas ou criações;

– obtendo baixa produtividade do seu gado e alongando desnecessariamente a idade para iniciar a atividade reprodutiva e para chegar ao mercado (e ocupando a terra escassa por um período excessivo e desnecessariamente longo) devido a falta de um melhor manejo da alimentação e da sanidade;

– permitindo que ocorram grandes perdas no campo, na colheita, na armazenagem e no transporte.

Em resumo, se os agricultores não se organizam para conquistar uma maior superfície de terra, se continuam mantendo 20% dela improdutiva, se não a utilizam durante todo o ano, se não adotam tecnologias apropriadas que lhes permitiriam aumentar os rendimentos das explorações, se permitem que ocorram perdas durante e depois da colheita….., é evidente que a escassa terra será insuficiente e pouco produtiva e, em conseqüência, ainda mais insuficiente. Como se pode observar, além da insuficiência de terra, também existe uma inadequação na aplicação das tecnologias agropecuárias e gerenciais, que contribui a fazê-la ainda mais insuficiente. E imperiosa e urgente a necessidade de orientar e capacitar aos produtores para que eles mesmos façam esta transformação, a partir do uso de tecnologias que sejam apropriadas aos recursos que possuem, em vez de continuar esperando por perfeccionismos inalcançáveis e utopias dependentes de decisões e auxílios externos. Nem sempre a melhor forma de aumentar a produção dos pequenos agricultores é conceder-lhes mais terra.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

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