O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO XI PARTE III

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

COMO ENFRENTAR A ADVERSIDADE PRODUTIVA E A ESCASSEZ DE RECURSOS

O QUE FAZER QUANDO AS SEMENTES MELHORADAS SÃO EXCESSIVAMENTE CARAS?

As sementes melhoradas têm um grande potencial para aumentar os rendimentos por superfície cultivada; em alguns casos, a simples mudança deste fator permite obter extraordinários incrementos na produtividade. Apesar disto e por distintas razões, os pequenos agricultores normalmente não utilizam sementes de melhor qualidade (genética, física, sanitária e fisiológica); os baixos rendimentos que por tal motivo obtêm, requerem que ampliem a superfície cultivada muito além do que seria necessário; esta ampliação exige uma esgotadora e desnecessária utilização de mão-de-obra. Os agricultores não podem seguir semeando grãos de baixa produtividade e dessa forma estar condenados a uma produção insuficiente; mui especialmente em zonas de minifúndio, onde com mais razão é necessário obter maior quantidade de alimentos por unidade de terra, quer seja cultivando variedades mais precoces, mais produtivas ou mais nutritivas.

A incidência das sementes no custo total de produção é habitualmente muito baixa (existem algumas exceções, como por exemplo, os tubérculos de batatas) frente aos indiscutíveis benefícios que elas produzem em termos de aumento dos rendimentos. Em função disso, mesmo que as sementes sejam caras, os agricultores deverão fazer esforços especiais para ter acesso a um material de bom potencial produtivo. Caso não possam comprá-las todos os anos, deveriam adquiri-las em pequenas quantidades (não híbridas) e multiplicá-las para tê-las disponíveis para os anos seguintes, a preços muito baixos.

A propósito, uma publicação da FAO denominada “Auto-abastecimentos de sementes de qualidade: uma solução ao alcance do pequeno agricultor” demonstra as reais possibilidades que têm os camponeses, por limitados que sejam os seus recursos de produzir suas próprias sementes. Nesta publicação se menciona, a título de exemplo, que para produzir aproximadamente os 20 kg de sementes que são necessários para semear um hectare de milho, seria suficiente cultivar (com boa tecnologia) no ano anterior uma parcela com uma superfície inferior a 100m2; e, que para semear esta reduzida superfície, o agricultor necessitaria comprar apenas 150 a 200 gramas de sementes de boa qualidade. Qual é o agricultor que não pode comprar 150-200 gramas de sementes e cultivar com tecnologia adequada, uma parcela de 100 metros quadrados para multiplicá-las? Adicionalmente esta alternativa tem um extraordinário efeito educativo e motivador, através do qual o próprio agricultor se dará conta que, se ele foi capaz de cultivar com racionalidade e eficiência uma superfície de 100 metros quadrados, porque não será capaz de fazê-lo em uma superfície de 1000 ou de 10.000 metros quadrados ou de fazê-lo em toda a área cultivada. Se foi capaz de fazê-lo com o milho, porque não poderá fazê-lo com o feijão, a soja ou com o amendoim?

Como alternativa, os pequenos agricultores poderiam manter um campo comunitário de produção de sementes e mudas, o qual poderia ser conduzido por um dos seus membros, prévia e adequadamente capacitado para tal fim. Também poderiam obter os materiais de propagação através de seleção massal, como por exemplo, escolher as plantas mais sadias, mais vigorosas e mais produtivas; no caso do milho, eliminar os grãos das extremidades das espigas; no caso da batata inglesa, marcar as plantas com sintomas de vírus e destruí-las para que seus tubérculos não se misturem com aqueles destinados a sementes; no caso das leguminosas, eliminar as vagens mais próximas ao solo; no caso da mandioca, utilizar o terço médio das ramas e escolher estas em função da sanidade e do número de raízes; no caso das hortaliças, selecionar as plantas mais sadias e mais produtivas, guardando para obter sementes os melhores frutos, etc; adicionalmente colhê-las em data mais próxima à maturação fisiológica, secá-las imediatamente depois da colheita e armazená-las em lugar fresco e seco, ventilado e protegido das pragas.

Como se pode constatar, os pequenos agricultores poderiam ter reais possibilidades de dispor de sementes de melhor qualidade, sem necessidade de que ano após ano gastem dinheiro com sua compra; ou estejam sujeitos a que não cheguem a tempo de semeá-las, não tenham boa sanidade, germinação e pureza, ou que o seu potencial produtivo seja insatisfatório.

No entanto, a grande maioria dos agricultores ao não adotar estas medidas e ao não dispor de recursos para comprar sementes melhoradas, segue semeando ano após ano seus grãos de baixo potencial produtivo, com desconhecido e freqüentemente baixo poder germinativo e muitas vezes contaminados com patógeneos, pragas e sementes de ervas daninhas; esta limitante somada ao fato de não fazer teste de germinação e de não regular a plantadeira, redunda em um inadequado espaçamento e, em conseqüência, em baixos rendimentos. Nestas condições, de pouco servirá que os agricultores gastem seus escassos recursos em irrigar e aplicar fertilizantes e pesticidas, porque devido às razões antes citadas, a cultura não responderá adequadamente a estes fatores externos de alto custo.

O QUE FAZER QUANDO OS FERTILIZANTES QUÍMICOS SÃO CAROS E INACESSÍVEIS?

Os solos dos pequenos agricultores geralmente estão muito erodidos e têm baixa fertilidade; consequentemente, uma medida imprescindível para tornar factível esta estratégia de autodesenvolvimento endógeno, é recuperar e manter a fertilidade do solo para aumentar a sua produtividade. Para tal fim é muito conveniente que os agricultores incluam em seus sistemas de produção a criação de animais e a rotação de culturas com leguminosas inoculadas.Devido ao esgotamento dos solos, é difícil aumentar os rendimentos das culturas sem utilizar adubos orgânicos ou fertilizantes químicos. Infelizmente, estes últimos têm preços que muitos pequenos agricultores não podem pagar; porém felizmente, a recuperação e manutenção da fertilidade dos solos não necessariamente são sinônimos de permanentes e custosas incorporações de fertilizantes sintéticos. A ciência agronômica dispõe de outras alternativas que tornam os fertilizantes químicos menos imprescindíveis e, se persiste a imprescindibilidade de seu uso, que eles sejam mais eficientes. Algumas das alternativas incluídas no capítulo 5 demonstram claramente estas possibilidades.

Se os agricultores não adotam tais alternativas; se produzem monoculturas que não lhes permitem fazer rotações com leguminosas inoculadas; se em seus sistemas de produção não incluem os animais, os que ajudariam a recuperar a fertilidade dos solos através das pastagens e do esterco; se deixam o solo sujeito a erosão por mantê-lo descoberto durante longos períodos de tempo, em vez de semear alguma cultura de cobertura para adubo verde; se desperdiçam ou queimam a matéria orgânica disponível; se não fazem análise de solo antes de aplicar os fertilizantes químicos e os incorporam em quantidade,formulação, época (sem parcelar a aplicação) ou localização inadequada; se não semeiam em curvas de nível; e se, finalmente, não eliminam as ervas daninhas no momento oportuno e permitem que estas e não as culturas, consumam os nutrientes; se tudo isso ocorre (e em geral lamentavelmente ocorre), é evidente que os agricultores seguirão muito dependentes do uso de fertilizantes químicos e deverão comprá-los em quantidades superiores às quais seriam necessárias se adotassem as alternativas tecnológicas recém-mencionadas.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

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