O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO XI PARTE IV

O LIVRO DOS POBRES RURAIS       

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

COMO ENFRENTAR A ADVERSIDADE PRODUTIVA E A ESCASSEZ DE RECURSOS

O QUE FAZER QUANDO AS RAÇÕES E CONCENTRADOS SÃO MUITO CAROS?

“Convém assinalar que nos programas governamentais da maioria dos países latino americanos, o aspecto alimentação é o que menos atenção recebe. Com frequência se sustenta que a baixa produção dos animais das pequenas unidades agropecuárias, se deve ao seu baixo potencial genético. Sob essa premissa, se investem somas consideráveis de dinheiro em importações de animais de “melhor” qualidade genética e em programas de inseminação artificial e até transferência de embriões com resultados negativos. A magnitude em que a alimentação afeta a produtividade animal, se pode apreciar nos resultados de um experimento executado na serra do Peru (IVITA, 1974). Ovelhas crioulas procedentes de várias comunidades rurais com um peso médio de 19,7 kg aos 20 meses de idade e prenhas, foram transladadas para potreiros de “rye grass e trevo branco”, prévio tratamento contra parasitas 45 É freqüente que agricultores mal orientados comprem fórmulas compostas de fertilizantes que contêm N, P e K, em circunstâncias nas quais a cultura anterior foi uma leguminosa inoculada e em conseqüência, o solo provavelmente requer menos nitrogênio; ou que a mata foi recentemente derrubada e queimada e, nestas condições, o solo possivelmente tem suficiente potássio. gastrointestinais. Seus cordeiros, nascidos neste novo ambiente, pesaram ao desmame, aos 90 dias, em média 17 kg”. Isto significa que atingiram em 90 dias quase o mesmo peso que suas mães levaram mais de 600 dias para consegui-lo.

Muitos produtores não conseguem fazer economicamente viáveis as suas explorações pecuárias pelo fato de alimentar os seus animais com grandes quantidades de rações e concentrados industriais. Devido ao seu alto preço, este procedimento encarece muitas vezes desnecessariamente os custos de produção. Os agricultores poderiam reduzir os custos da alimentação de seus animais, se estivessem sensibilizados sobre a importância de algumas das medidas mencionadas a seguir e se fossem devidamente capacitados para adotá-las:

1) Melhorar suas pastagens através da introdução de gramíneas mais produtivas e nutritivas e sua associação com forrageiras leguminosas devidamente inoculadas, manejando-as adequadamente para que produzam forragens em maior quantidade e de melhor qualidade. A base da alimentação dos poligástricos deveria ser constituída por pastagens para reduzir os custos, e para que eles não compitam com os seres humanos e com os animais monogástricos. Para os poligástricos, as rações e concentrados de origem industrial deveriam ser apenas um complemento, depois de esgotadas, nesta ordem, as seguintes alternativas: pastoreio direto; forragens para corte e consumo in natura; feno e/ou silagem; e grãos produzidos na propriedade. Os concentrados deveriam ser utilizados de forma estratégica, fornecendo-os em maior quantidade às vacas que produzem mais, nas etapas que têm maior capacidade de resposta e no momento que são maiores suas exigências nutricionais, para compensar o esgotamento provocado pela maior produção de leite. Em virtude do seu alto custo os concentrados não deveriam ser utilizados de forma indiscriminada independente do desempenho produtivo de cada vaca.

2) Armazenar os excedentes em épocas de abundância (silagem, feno) para utilizá-los nos períodos de escassez. Melhor ainda, se for possível (e muitas vezes o é) semear espécies que produzam nos períodos críticos; a título de exemplo, semear aveia ou couve forrageira durante o inverno em zonas temperadas ou leguminosas e cana de açúcar em zonas tropicais. Estas são alternativas muito interessantes para produzir “feno ou silagem viva” e tê-los disponíveis nas épocas de escassez, sem necessidade de incorrer em todos os gastos (em dinheiro e tempo) para a preparação, armazenagem e conservação da silagem ou feno convencionais.

3) Cultivar capineiras para corte, porque o seu rendimento por hectare geralmente é superior ao dos potreiros em regime de pastoreio.

4) Implantar bancos de proteínas.

5) Usar antiparasitários para que sejam os animais e não os parasitas os que consomem os nutrientes das forragens e rações.

6) Elaborar suas próprias rações, a partir de matérias primas que produzem ou que poderiam produzir em suas propriedades. Nas chácaras dos pequenos agricultores da América Latina se produzem, ou se poderiam produzir, matérias primas com as quais eles poderiam obter forragens e rações de excelente qualidade, tais como milho, sorgo, soja, alfafa, trevo, guandu, gliricidia, desmodium, centrosema, soja perene, algaroba, leucena, stilosantes, cana de açúcar, rami, mandioca, abóbora, batata doce, etc. Com algumas destas espécies, os agricultores poderiam melhorar as suas pastagens monofíticas, aumentar sua capacidade de suporte e melhorar seu valor nutritivo; outras lhes permitiriam complementar suas pastagens mediante produção de forrageiras para corte; e por último, certas espécies lhes possibilitariam a produção de suas próprias rações a nível de propriedade; comprando apenas pequenas quantidades de sais minerais e proteínas de origem animal (só para os monogástricos).

Estas rações caseiras podem ser de qualidade superior as industrializadas e seus custos são incomparavelmente mais baixos; quando são complementadas com alfafa verde ou por pastoreio com forrageiras rústicas e palatáveis, os gastos com a alimentação se reduzem de forma muito significativa. Se considerarmos que em certas criações, como a de suínos, a alimentação constitui 80% do custo total de produção, é evidente que comprar ou produzir as próprias rações determinará se o agricultor terá perdas ou ganhos em sua atividade.

É inaceitável que os pequenos agricultores produzam algumas das valiosas matérias primas antes mencionadas (milho, sorgo, soja, alfafa, etc), as vendam in natura a preços baixos, e posteriormente comprem a altos preços as rações fabricadas, em grande parte com estes mesmos ingredientes. É necessário adverti-los que ao proceder desta maneira, provavelmente estão comprando uma ração que foi fabricada com os mesmos ingredientes produzidos pelos próprios agricultores; ingredientes que, depois de fazer um longo percurso desde as suas propriedades de origem até o centro industrial, regressam devidamente processados e vendidos a preços elevados. Adotando este procedimento equivocado, os produtores não se dão conta que estão compartilhando seus escassos ganhos com o comerciante que lhes comprou a matéria prima, com o industrial que a processou e com o intermediário que lhes vendeu a ração; e que além do mais, estão também pagando o frete de ida e volta os impostos e outros gastos incorporados ao preço final da ração ou concentrado.

Mais dramático ainda é constatar que muitas vezes estes produtores necessitam recorrer aos agentes de crédito, endividar-se e pagar juros para comprar uma ração que, como se disse, muito provavelmente foi fabricada com os ingredientes produzidos em suas propriedades. Estas e outras distorções similares (cujas soluções poderiam e deveriam estar ao alcance dos agricultores) são importantes razões pelos quais os seus lucros são insuficientes. Se eles estivessem devidamente capacitados para fabricar tais rações em suas propriedades ou comunidades, economizariam os recursos que lhes permitiriam pagar, em curto prazo o custo do motor e do triturador necessários para moer os ingredientes. Uma boa capacitação (feita uma só vez) seria suficiente para emancipar os produtores da dependência prejudicial e desnecessária na aquisição de rações que se repete de forma rotineira, durante todas as suas vidas.

Como se vê, os recursos produtivos geralmente estão disponíveis em suas propriedades, as soluções existem e são eficazes; só falta capacitar aos agricultores e demonstrar-lhes que eles mesmos são capazes de solucionar os seus problemas, a partir do melhor uso dos seus próprios recursos.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

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