O LIVRO DOS POBRES RURAIS – CAPÍTULO XI PARTE V

O LIVRO DOS POBRES RURAIS

DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO: da dependência ao protagonismo do agricultor

É necessário e possível emancipar os agricultores da dependência do fracassado paternalismo estatal

Polan Lacki[1]

COMO ENFRENTAR A ADVERSIDADE PRODUTIVA E A ESCASSEZ DE RECURSOS

O QUE FAZER PARA MELHORAR O POTENCIAL GENÉTICO DOS ANIMAIS?

Os pequenos agricultores normalmente têm poucos animais de produção, em virtude da insuficiência de recursos para adquiri-los em maior quantidade, da reduzida superfície de suas terras e da baixa capacidade de suporte de suas pastagens. Agrava esta situação o fato de que necessitam de um reprodutor e têm poucas fêmeas; por tal motivo geralmente existe um superdimensionamento do primeiro em relação com o número de fêmeas (por exemplo tem um reprodutor para cinco vacas, quando o ideal seria um para 25 ou 30 fêmeas). Em virtude deste superdimensionamento, os produtores contribuem, sem querer, para que a superfície de sua terra escassa seja ainda mais reduzida, porque o reprodutor ocupa o espaço e consome os alimentos que poderiam ser destinados a mais de uma fêmea adicional. O outro agravante é que tanto os reprodutores como as fêmeas geralmente são de baixo potencial genético e cada pequeno agricultor não pode ter um bom reprodutor. Uma alternativa seria a organização dos agricultores para que em conjunto adquirissem um reprodutor de melhor potencial, que possa atender a um número ideal de fêmeas pertencentes a vários integrantes do grupo; os agricultores deverão entender que lhes será muito mais econômico adquirir e alimentar a um único porém bom reprodutor, que comprar cinco reprodutores medíocres e alimentar cinco deles desnecessariamente. A segunda alternativa seria constituir um grupo para contratar os serviços de inseminação artificial (ou organizar o seu próprio serviço).

Com qualquer das duas alternativas se superaria o problema do superdimensionamento; ao eliminar o reprodutor individual, cada produtor poderia ter uma vaca adicional e, sobre tudo, melhoraria a qualidade genética do rebanho obtendo reconhecidas e indiscutíveis vantagens produtivas e econômicas. Infelizmente, a maioria dos produtores não adota estas soluções, não tanto por falta de condições econômicas para fazê-lo; e sim porque não estão convencidos sobre a importância de melhorar o potencial genético do seu rebanho e por desconhecimento sobre suas reais possibilidades de consegui-lo.

É conveniente reiterar que de pouco servirá que os produtores melhorem o potencial genético do seu gado, se antes desta medida eles não aumentarem a produção de forragens, se não produzirem as suas próprias rações, se não armazenarem forragem para épocas de escassez, se não desmamarem precocemente os terneiros, se não melhorarem a eficiência reprodutiva (antecipando a idade de reprodução, reduzindo os intervalos entre partos, aumentando o número de crias por parto e aumentando o número de animais desmamados) e se não vacinarem, mineralizarem e desparasitarem os seus animais.

Uma reflexão sobre os temas incluídos nos dois últimos itens acima:

Nestes dois itens foram incluídas algumas alternativas que permitiriam aos produtores pecuários aumentar a produção e a produtividade dos seus rebanhos, através da adoção de medidas compatíveis com os recursos que eles normalmente possuem. Não obstante, eles geralmente não o fazem, entre outras razões porque não se dão conta das perdas que lhes ocasiona o fato de adotar métodos tradicionais de criação de animais. Também porque não lhes foi demonstrado que eles dispõem dos recursos necessários, que têm reais possibilidades de introduzir inovações de baixo custo e que são capazes de fazê-lo.

Com o propósito de motivar aos produtores para que adotem as medidas antes propostas, é útil fazer-lhes ver, entre outras coisas que:

a) Se uma vaca inicia a parir aos 42 meses podendo fazê-lo aos 28, se tem partos a cada 24 meses podendo tê-los a cada 13 meses, e se o novilho leva cinco anos para chegar ao mercado podendo fazê-lo aos dois anos e meio, é evidente que o agricultor verá seus ganhos sensivelmente reduzidos; além do mais, necessitará mais terra e maior quantidade de alimentos para manter animais que durante um longo tempo consomem, porém virtualmente não produzem, ou produzem abaixo de suas potencialidades.

b) Se uma vaca produz três litros diários de leite durante 180 dias podendo produzir seis litros durante 300 dias, a renda diminue, já que ela produziu apenas 540 litros de leite por lactação, em circunstâncias que poderia ter produzido 1.800; Ademais, há uma capacidade ociosa correspondente a um fator de produção caro – como são as vacas – que aos produtores lhes custa muito adquirir. Se as vacas produzem pouco leite, a prioridade não necessariamente deverá consistir em comprar mais vacas, mas sim em melhorar o desempenho produtivo e reprodutivo das já existentes, fundamentalmente com melhor alimentação e cuidados sanitários; é necessário sensibilizar aos agricultores sobre a importância da produtividade e demonstrar-lhes que aumentar o número de vacas não é a única alternativa (nem a mais importante) para incrementar a produção de leite e melhorar os seus ganhos.

c) Se uma porca tem três partos em dois anos e consegue desmamar neste período apenas 15 leitões podendo ter cinco partos e desmamar 35; se estes demoram 11 meses para chegar ao peso de mercado em vez de fazê-lo em 6 meses, é evidente que se produzirá desperdício de animais de produção, terra, instalações, mão-de-obra e, muito especialmente, do fator de maior custo que é a alimentação; porque as fêmeas deixaram de produzir 20 leitões e os 15 leitões desmamados consumiram recursos durante cinco meses adicionais, em cujo período não produziram ou o fizeram abaixo de suas potencialidades.

Muitas e reiteradas experiências têm demonstrado que para melhorar a produção pecuária não necessariamente se requer de grandes investimentos, nem de instalações muito sofisticadas, nem de animais de alto potencial genético, nem de transplante de embriões, nem de polivitamínicos ou suplementos de concentrados industrializados. Somente se reque melhorar a alimentação (com componentes produzidos na propriedade), a sanidade e a reprodução.

O QUE FAZER PARA EVITAR RISCOS E INCERTEZAS?

As atividades agropecuárias estão sujeitas a riscos tais como a incidência de pragas e efermidades, as adversidades climáticas, as incertezas de preços e de comercialização, etc. É necessário que os agricultores diminuam as probabilidades de se ver afetados por aqueles riscos e incertezas que são evitáveis ou atenuáveis. Com tal propósito, poderiam adotar as seguintes medidas:

1) Planejar com os seus vizinhos as atividades agropecuárias (espécies e superfícies a cultivar), com o fim de adequar a oferta à demanda e com isto evitar superprodução e baixa de preços; fazer a chamada “produção programada”.

2) Diversificar a produção para não depender de uma ou de poucas culturas ou criações. É fácil entender que se os agricultores se dedicam a poucas culturas (ou a uma só), é mais provável que uma adversidade climática, a incidência de uma praga ou enfermidade, ou um preço desfavorável os afetem mais gravemente. A título de exemplo: se a insuficiência de chuvas prejudica o milho, talvez se salve o sorgo, que é mais resistente ao estresse hídrico; se uma geada imprevista destroi a plantação de batata inglesa, talvez se salvem as lentilhas, a aveia e a cevada; se alguma enfermidade prejudica a batata inglesa, provavelmente não afetará a batata doce ou a mandioca; se a febre suína afeta aos porcos, todas as demais espécies se salvarão porque não são susceptíveis a tal enfermidade.

Mesmo que não ocorra nenhuma adversidade climática ou sanitária, isto não significa que os agricultores de monocultura estarão a salvo; porque quando as condições são favoráveis a produção será satisfatória para a maioria dos produtores e os preços se reduzirão; no ano seguinte, poucos semearão a cultura afetada e os preços se elevarão; no terceiro ano, todos semearão a referida espécie e os preços se reduzirão e assim ocorrerá sucessivamente. A diversificação das atividades agrícolas e sua integração com as atividades pecuárias é o melhor antídoto contra os riscos; ela é a “companhia de seguros” dos agricultores.

3) Escalonar as semeaduras ou utilizar variedades com distintos ciclos vegetativos, para diminuir os riscos climáticos, parcelar a oferta e alongar o período de comercialização; ao estender este período poderão vender maiores quantidades e fazê-lo a melhores preços.

4) Produzir espécies não perecíveis que técnica e economicamente podem ter postergada a sua venda, se no momento da colheita as condições de mercado não forem favoráveis.

5) Produzir espécies que possam ser processadas ou transformadas em outro produto se as condições de mercado assim o recomendarem (por exemplo, elaborar frutas secas ou transformar milho e soja em suíno).

6) Adotar medidas contra uma possível incidência de pragas e enfermidades nas culturas ou contra enfermidades e parasitas nos animais. Nas condições dos pequenos produtores pecuários de muitos países da Região, a incidência de febre aftosa, mastite, vermes gastrointestinais e carrapatos é muito freqüente; e, por tal motivo deveria receber medidas permanentes de profilaxia, diagnóstico e controle. Por não fazê-lo, os produtores pecuários têm grandes perdas, com o agravante de que algumas não são facilmente perceptíveis porque os animais não morrem. Não obstante, se reduz a produção e a fertilidade e baixa o índice de conversão alimentar; com isto se desperdiçam rações, aumentam os gastos sanitários, se alonga o tempo para chegar ao peso de mercado, etc. Os produtores deveriam ser capacitados sobre medidas profiláticas e primeiros socorros veterinários; com isto poderiam evitar significativas e desnecessárias perdas em seus rebanhos.

Para contato com o autor do Livro

Email: polan.lacki@onda.com.br ou polan.lacki@uol.com.br


[1]

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As grandes perguntas para a sustentabilidade da agricultura familiar: “o quê e como fazer para que os agricultores pudessem ser eficientes e competitivos com menos créditos, com menos subsídios, com menos investimentos, com menos garantias oficiais de comercialização, em fim, com menos Estado”. A viabilidade e a eficácia dessas soluções “que custam pouco, mas rendem muito“ estão demonstradas no Livro dos Pobres Rurais que você terá toda semana o prazer de ler refletir e prosear com você mesmo e com seus colegas e companheiros e companheiras de trabalho.

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