VIDA SUSTENTÁVEL

UMA CIÊNCIA PARA VIDA SUSTENTÁVEL

Fritjof Capra

Físico e Ambientalista[1]

O conceito “conexões ocultas” foi tirado de um discurso feito pelo dramaturgo e estadista tcheco Václav Havel, no qual ele disse: “A educação, hoje, é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre os fenômenos.” Na ciência, essa capacidade recebe o nome de pensamento sistêmico ou “pensamento de sistemas”: um pensamento que se desenvolve em função de relações, padrões e contextos. Uso o pensamento sistêmico e alguns dos conceitos fundamentais da teoria da complexidade para desenvolver uma estrutura conceitual que integra as três dimensões da vida: a biológica, a cognitiva e a social. Estendo a abordagem sistêmica ao domínio social e cultural e aplico-a a algumas das questões mais prementes de nossos tempos.

AS REDES VIVAS

Uma das intuições mais importantes da compreensão sistêmica da vida é o reconhecimento de que as redes são o padrão básico de organização de todos os sistemas vivos. Os ecossistemas são compreendidos como teias alimentares (ou seja, redes de organismos); os organismos são redes de células, órgãos e sistemas de órgãos; e as células são redes de moléculas. A rede é um padrão comum a todas as formas e níveis de vida. Onde quer que haja vida, há redes.

Um exame mais atento dessas redes vivas nos mostra que a sua principal característica é o fato de elas gerarem a si mesmas. Numa célula, por exemplo, todas as estruturas biológicas são continuamente produzidas, restauradas e regeneradas pela rede celular.

Do mesmo modo, no nível de um organismo multicelular, as células corpóreas são continuamente regeneradas e recicladas pela rede metabólica do organismo. Transformando ou substituindo seus componentes, as redes vivas continuamente criam ou recriam a si mesmas.

A vida no domínio social também pode ser compreendida em função do conceito de rede, mas neste caso já não estamos tratando de reações químicas; estamos tratando de comunicações. Nas comunidades humanas, as redes vivas são redes de comunicações. À semelhança das redes biológicas, elas são autogeradoras, mas os frutos desse processo de geração, em sua maioria, não são materiais. Cada comunicação cria pensamentos e significados que dão origem a outras comunicações, e assim a rede inteira vai gerando a si mesma.

À medida que as comunicações continuam processando-se numa rede social, elas acabam por produzir um sistema comum de crenças, doutrinas e valores – um contexto comum de significado chamado de cultura, que é continuamente sustentado por novas comunicações. Através da cultura, os indivíduos adquirem sua identidade de membros da rede social.

A análise das diferenças e semelhanças entre as redes biológicas e sociais é essencial para a minha síntese da nova compreensão científica da vida. Meu objetivo não é só o de oferecer uma visão unificada da vida, da mente e da sociedade, mas também o de desenvolver um modo coerente de compreender, segundo o pensamento sistêmico, algumas das questões mais críticas da nossa época.

No decorrer deste novo século, dois fenômenos específicos terão um efeito decisivo sobre o bem-estar e o modo de vida da humanidade. Ambos desenvolvem-se em rede e ambos estão ligados a uma tecnologia radicalmente nova.

AS REDES DO CAPITALISMO GLOBAL

O primeiro é a ascensão do capitalismo global; o outro é a criação de comunidades sustentáveis baseadas na prática do projeto ecológico. Ao passo que o capitalismo global é composto de redes eletrônicas de fluxos de finanças e de informação, o projeto ecológico mexe com redes ecológicas de fluxos de energia e matéria.

A meta da economia global, em sua forma atual, é a de elevar ao máximo a riqueza e o poder de suas elites; a do projeto ecológico, a de elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida. Vou falar agora de modo mais detalhado sobre esses dois fenômenos.

Nos últimos trinta anos, a revolução da informática deu origem a um novo tipo de capitalismo, um capitalismo profundamente diferente do que se formou durante a Revolução Industrial ou do que se constituiu depois da Segunda Guerra Mundial.

Esse novo capitalismo tem três características fundamentais: suas principais atividades econômicas são globais; seus principais fatores de produtividade e competitividade são a inovação, a geração de conhecimentos e o processamento de informações; e ele se estrutura, em grande medida, em torno de redes de fluxos financeiros. Esse novo capitalismo global também é chamado de “nova economia” ou simplesmente de “globalização”.

Na nova economia, o capital acompanha passo a passo os acontecimentos e se desloca rapidamente de uma opção para outra numa busca global incansável pelas melhores oportunidades de investimento. Os movimentos desse cassino global, operado por máquinas eletrônicas, não seguem nenhuma lógica de mercado. Pelo contrário, os próprios mercados são continuamente manipulados e transformados por estratégias de investimento levadas a cabo eletronicamente, pelas percepções subjetivas de analistas influentes, pelos acontecimentos políticos ocorridos em quaisquer partes do mundo e – principalmente – pelas turbulências imprevistas causadas pelas interações complexas entre os fluxos de capital nesse sistema altamente não-linear. Essas turbulências, que em sua maior parte não podem ser controladas, resultaram numa série de crises financeiras graves nos anos recentes.

Até agora, o efeito da nova economia sobre o bem-estar da humanidade tem sido mais negativo do que positivo. Ela enriqueceu uma elite global de especuladores financeiros, empresários e tecnocratas, mas, no todo, suas conseqüências sociais e ambientais têm sido catastróficas.

Nestes últimos anos, os efeitos sociais e ecológicos da globalização têm sido largamente debatidos pelos acadêmicos e líderes comunitários. As análises feitas por eles nos mostram que a nova economia está gerando um sem-número de conseqüências danosas, todas elas ligadas entre si: o aumento da desigualdade e da exclusão social, o colapso da democracia, uma deterioração mais rápida e mais extensa do ambiente natural, e uma pobreza e numa alienação cada vez maiores.

O novo capitalismo global pôs em risco e realmente destruiu comunidades locais no mundo inteiro; e, com a prática de uma biotecnologia erroneamente concebida, violou a santidade da vida, na medida em que tentou reduzir a diversidade à monocultura, transformar a ecologia numa simples engenharia e fazer da própria vida uma mercadoria.

Cada vez menos se pode duvidar de que o capitalismo global, em sua forma atual, é insustentável e precisa ser reformulado desde os alicerces.

A SOCIEDADE CIVIL GLOBAL

Com efeito, no mundo inteiro, membros da comunidade acadêmica, líderes comunitários e ativistas sociais têm levantado a voz para nos dizer que temos de “virar o jogo”, e também para sugerir maneiras concretas de fazê-lo.

Toda e qualquer proposta realista de “virada” tem de partir do princípio de que a forma atual de globalização econômica foi concebida conscientemente e, por isso, pode ser reformulada. O chamado “Mercado Global” não passa, na realidade, de uma rede de máquinas programadas segundo o princípio fundamental de que o ganhar dinheiro deve ter precedência sobre os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental e todos os demais valores. Entretanto, as mesmas redes eletrônicas de fluxos de finanças e de informação podem ser programadas segundo outros valores. O problema não é tecnológico, mas político.

Na virada deste século, uma notável coalizão global de ONGs constituiu-se em torno dos valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Em 1999, centenas de organizações do terceiro setor interligaram-se eletronicamente por vários meses para preparar ações conjuntas de protesto durante a reunião da OMC em Seattle.

A “Coalizão de Seattle”, que depois recebeu esse nome, atingiu plenamente o objetivo de tornar conhecidas no mundo inteiro as suas propostas e invalidar a reunião da OMC. Suas ações coordenadas, baseadas em estratégias de rede, mudaram permanentemente a atmosfera política que cerca a questão da globalização econômica. De lá para cá, a Coalizão de Seattle não só organizou outros protestos como também promoveu três encontros do Fórum Social Mundialem Porto Alegre. Nosegundo encontro, as ONGs apresentaram todo um conjunto de políticas comerciais alternativas, entre as quais se inclui a proposta concreta e radical de reestruturação das instituições financeiras globais, o que modificaria profundamente a natureza da globalização.

A Coalizão de Seattle é o exemplo de uma nova espécie de movimento político, típica da Era da Informática. Em virtude do uso hábil que fazem da interatividade, da velocidade e do alcance global da Internet, as ONGs da coalizão são capazes de interligar-se em rede, partilhar informações e mobilizar seus membros com uma rapidez sem precedentes. Em conseqüência disso, as novas ONGs globais tornaram-se personagens políticos importantes, e independentes das instituições nacionais e internacionais tradicionais. Constituem, assim, uma nova espécie de sociedade civil global.

SUSTENTABILIDADE ECOLOGICA

Há três grupos de questões que parecem concentrar a atenção das maiores e mais ativas dentre as coalizões do terceiro setor. O primeiro é o desafio de reformular as leis e instituições que regem a globalização; o segundo é a oposição aos alimentos geneticamente modificados e a promoção da agricultura sustentável; e o terceiro é o projeto ecológico – um esforço coordenado de remodelação de nossas cidades, tecnologias, indústrias e estruturas físicas a fim de torná-las ecologicamente sustentáveis.

Em geral, a comunidade sustentável é definida como aquela que é capaz de atender às suas necessidades e satisfazer suas aspirações sem diminuir as oportunidades das gerações futuras. Temos aí uma importante exortação moral que nos chama à responsabilidade de legar, aos nossos filhos e aos nossos netos, um mundo tão cheio de oportunidades quanto o que nos foi legado. Entretanto, essa definição nada tem a nos dizer acerca de como construir uma comunidade sustentável. O que nos falta é uma definição operativa de sustentabilidade ecológica.

A chave de uma tal definição operativa é a percepção de que não precisamos inventar as comunidades humanas sustentáveis a partir do nada, mas podemos modelá-las segundo os ecossistemas naturais, que são comunidades sustentáveis de animais, vegetais e microorganismos.


[1] Fritjof Capra (VienaÁustria1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Capra recebeu, em 1966, seu doutorado em física teórica pela Universidade de Viena e tem dado palestras e escrito extensamente sobre as aplicações filosóficas da nova ciência. Atualmente vive com a esposa e a filha em BerkeleyCalifórnia, onde é o diretor do centro de educação ecológica.

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