AGROTÓXICO – A IMPOSIÇÃO DO USO

AGROTÓXICO

 A IMPOSIÇÃO DO USO PELO AUMENTO DA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS

SUNDERHUS; Adolfo Brás[1]

INTRODUÇÃO

A produção de alimentos tem como ponto fundamental a diversificação e a integração das atividades produtivas agrícolas, da pecuária e dos processos de transformação primária desenvolvidas em ambientes naturais – pequenas propriedades demarcadas geograficamente para o desenvolvimento de uma agricultura de natureza sustentável acompanhando um ciclo natural sendo a terra o meio de produção mais significativo e o todo o processo de produção dependia mais das condições naturais existentes do que devido aos incrementos artificiais.

A natureza complexa das relações do ser humano entre si e com o ambiente de produção apresenta-se com uma riqueza de contradições, por sua natureza dos interesses individuais e de um forte sentimento de que todos têm deveres e obrigações uns para com os outros, na vida produtiva ou no convívio social. Este sentimento esta presente de forma muito forte na agricultura de base familiar que exerce um papel de fundamental importância na economia sendo responsável em grande parte pelo sucesso dos negócios urbanos, por suprir a demanda interna de alimentos e pela manutenção das famílias no meio rural por apresentarem capacidade organizacional, agregação de valor aos produtos além de facilitar o acesso aos sistemas de comercialização tornando-os mais competitivo o que contribuem para o aumento da renda e para o desenvolvimento sustentável da família rural, da comunidade e município.

A evolução dos meios de produção na agricultura esta diretamente ligada à evolução experimentada pelo ser humano que o transforma tornando-o escravo dos modelos de produção experimentados ao longo de década pela agricultura moderna que busca atender ao capital e não mais as relações sociais, produtivas e de geração de trabalho e renda com sustentabilidade.

A ORIGEM HISTÓRICA

A lógica da agricultura moderna e marcada pelas imposições que buscam o aumento da produtividade com a maximização dos lucros promovendo alterações de profundas nas condições sócio produtivas, econômicas e ambientais nas unidades de produção.

Na agricultura esta evolução tem um marco histórico importante pela introdução da mecanização que veio acompanhada pelo aperfeiçoamento tecnológico que promoveram a substituição dos sistemas artesanais de produção e de organização do trabalho pela “eficiência e eficácia” da imposta pela revolução industrial. Estes avanços sem duvida trouxeram vários tipos de indústrias, com fortes e significativas alterações nos setores de serviço que absorveram estas “novas tecnologias” cujos riscos eram desconhecidos.

Esta nova lógica de “modernização da produção e dos serviços” promoveu profundas alterações na estrutura familiar de produção e nas relações de trabalho o que resultou numa utilização mais intensa da terra como de outros meios de produção dos agricultores familiares e camponeses. Dentre estas transformações impostas ao sistema produtivo familiar evidenciam-se as substancias químicas com forte destaque para os agrotóxicos.

Pela Lei Federal nº 7.802/89 define-se agrotóxicos como produtos e componentes de processos físicos, químicos ou biológicos destinados ao uso nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção das florestas nativas ou implantadas e de outros ecossistemas e também em ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora e da fauna a fim de preserva – lá da ação danosa dos seres vivos considerados nocivos, bem como substancias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores do crescimento. Somam-se a este grupo os fertilizantes químicos e os corretivos de acidez de solo.

Neste contexto histórico a expansão da indústria agroquímica no Brasil tem o seu inicio no século XX na década de 50, sendo sua implantação mais significativa a partir da década de 70 quando no período de 1975 a 1979 foram implantadas 19 unidades de produção de agrotóxicos seguidas posteriormente por mais de 40 outras unidades.

Hoje o Brasil “honrosamente” é o maior produtor de agrotóxico da America Latina e o terceiro maior consumidor e importador mundial, e toda esta “evolução tecnológica” tiveram como objetivo garantir a segurança e a qualidade alimentar aos cidadãos, ficando constatadas por pesquisadores e profissionais as suas diversas implicações no campo da saúde ocupacional e ambiental apontando varias situações de riscos dos agrotóxicos em todas as suas fases sejam na compra, manuseio, aplicação e descarte das embalagens e manutenção dos equipamentos expondo situações de riscos à saúde dos agricultores e aos trabalhadores.

Outro fato a se evidenciar e o de que toda esta “evolução produtiva” com objetivo de aumentar a produção e a disponibilidade de alimento com segurança revela uma forte contradição neste modelo agrícola brasileiro, que enquanto bate recordes seguidos de produtividade, contribuindo com cerca de 30% das exportações brasileiras, 40% da população brasileira sofre com insegurança alimentar, segundo dados do IBGE.

CONCLUSÃO

O Brasil e um dos países que apresenta maior desigualdade e com uma das maiores concentrações de terra do mundo e ganhou o posto de maior consumidor de agrotóxicos do planeta, alias este lugar e honrosamente conquistado pelo segundo ano consecutivo, superando os Estados Unidos segundo dados da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA.

Outro dado importante a ser observado e o de que o avanço da tecnologia nestes últimos 10 anos não reduziu o consumo de agrotóxicos no Brasil, muito pelo contrário, a moderna tecnologia empregada nas atividades produtivas agrícolas apresenta um comportamento ascendente no uso de agrotóxicos. Dados do IBGE e do SINDAG – Sindicato Nacional da Industria de Produtos para Defesa Agrícola ambos de 2009 apontam para um crescimento de 4,59% da área cultivada no período de 2004 e 2008 e no mesmo período um crescimento de 44,6% das quantidades vendidas de agrotóxicos. Ou seja, venderam-se agrotóxicos num ritmo 10 vezes superior ao crescimento da área plantada no Brasil naquele período, isto sem levarmos em conta a enorme quantidade de agrotóxicos que foi comercializada ilegalmente no país.

Dados da ANVISA mostram de forma clara que a contaminação de alimentos a mesa é uma realidade constatada pelo seu Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos – PARA com destaque para os níveis de contagio nas culturas de pimentão – 80%; uva – 56,4%; pepino – 54,8%; morango – 50,8%. Ainda acompanham este grupo as contaminações encontradas na couve – 44,2%; abacaxi – 44,1%; mamão – 38,8%, dentre outras 12 culturas analisadas e registradas com resíduos de agrotóxicos.

A preocupação dos dados mostra-se ainda maior e mais agravante quando das 819 amostras que apresentaram ingredientes ativos não autorizados, 206 amostras – 25,1% apresentaram resíduos que se encontram em processo de reavaliação toxicológica no Brasil. Deste universo, 32 amostras contem ingredientes ativos banidos ou nunca sequer registrados no Brasil, como o heptacloro, clortiofós, dieldrina, mirex, parationa-etilica, nonocrotofós e azinfós-metilico.

Quando os dados oficiais do IBGE nos apontam 70 milhões de brasileiros em estado de insegurança alimentar e com consumo de apenas 1/3 de frutas, verduras e legumes necessários a uma alimentação saudável – segundo a OMS, a solução para resolver esta realidade passa pela reforma agrária e pela conversão do modelo agroquímico e mercantil para um modelo de base agroecologica com controle social e participação popular. A persistirem estes números estaremos cada vez mais expostos aos males no ambiente, no trabalho diário dos agricultores familiares e dos trabalhadores rurais e em nossa “rica” dieta alimentar diária.


[1] Engenheiro agrônomo
CREA – ES 2146 D / 11ª Região
Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES, Brasil
ÁREAS DE ATUAÇÃO
1-         Organização Social e Redes Solidárias
2-         Microfinanças sociais
3-         Análise de Cadeias Produtivas
4-         Custo de Produção dos Arranjos Produtivos Locais
5-         Projetos Captação de Recursos – Agropecuária
6-         Projetos de Recuperação Ambiental

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