A COMUNIDADE INTELIGENTE – PARTE II

A COMUNIDADE INTELIGENTE

Ladislau Dowbor[1]

Colaboração de Lilia A. de Toledo Piza Martins[2]

Novembro 2000

OS DIREITOS SOCIAIS: UMA CULTURA

Esta compreensão é importante para avaliarmos cada experiência. Nem sempre o volume dos resultados físicos é essencial, frente à tão importante mudança cultural, ao resgate da iniciativa de uma comunidade antes passiva. Numa reunião com militares na Unicamp, no quadro de uma discussão sobre novos rumos, abordei o tema do orçamento participativo em Porto Alegre. Um general me interpelou, dizendo que era de lá, que conhecia a situação, e que o orçamento participativo não tinha nenhuma importância, pois envolvia uma porcentagem muito limitada do orçamento.

É preciso ter participado de reuniões de orçamento participativo, para descobrir no olho arregalado de um cidadão pobre o espanto da sua própria descoberta, de que aquele dinheiro é seu, de que trata de uma coisa pública, de que nem tudo é cinismo e trambique. Pedro Pontual apresenta, no seu excelente trabalho de doutorado, este imenso impacto educativo, no sentido mais amplo de resgate de cidadania, das experiências de orçamento participativo. Os generais, é preciso dizê-lo, raramente participam de reuniões de orçamento participativo, e é pouco provável que leiam a tese do Pedro Pontual. É uma pena, descobririam um dos principais eixos da segurança nacional, vista pela ótica de cidadania séria. E do nosso lado, é interessante refletir sobre isto, raramente pensamos em parcerias com o exército.

Este enfoque é importante, pois se bem que seja muito importante avaliar os programas pelos efeitos práticos que permitem por exemplo pelo acesso à água limpa, ou pela redução da mortalidade infantil, temos sempre de avaliar este outro lado, de construção de cidadania e de capital social. Quando se aloca um contrato de construção de casas a uma empreiteira, está se construindo moradia popular, mas sobre tudo está se desperdiçando uma enorme oportunidade de criar capital social.

Há poucas dúvidas de que as nossas vistas se voltam essencialmente para os pobres. No entanto, é impressionante como a busca dos melhores efeitos multiplicadores pode exigir outros enfoques. Participei de uma reunião interessante com donos de concessionárias de automóveis de Santo André, no Bairro Casa Branca. Traziam os olhos tão arregalados, ao receberem a visita de um secretário da prefeitura, como os participantes populares de uma primeira reunião de orçamento participativo. A proposta era simples: a compra de um carro é um caso de família, que envolve a comparação de várias marcas e opções. Neste sentido, os administradores dizem que o melhor lugar para um vendedor de carros é estar perto da concorrência. A prefeitura estava sugerindo que aproveitando a proximidade de várias concessionárias naquele bairro, se fizesse um calçadão, um espaço para as crianças, uma política de compra/lazer articulados e assim por diante. O curioso é que inicialmente os empresários só pensavam em buracos, guias e sarjetas, coisas de prefeitura. Foi gradualmente surgindo a compreensão de que na realidade podia-se fazer uma racionalização muito mais ambiciosa do espaço urbano, tornando a região ao mesmo tempo socialmente mais agradável e comercialmente mais produtiva.

Não é só porque são politicamente e economicamente excluídos que os pobres se surpreendem com espaços de diálogo. É porque o conceito político de uma gestão que ouve e articula diversos interesses é novo na cultura política do país. O conceito de win-win, ou os trabalhos de Hazel Henderson, não fazem propriamente parte da cultural geral. E neste sentido, a incompreensão atinge tanto pobres como empresários. A questão que se coloca, no exemplo citado, é que dificilmente construiremos a mudança de cultura política ao buscar introduzi-la apenas nos segmentos mais pobres da sociedade. O que está se construindo, é uma articulação social no sentido mais amplo, e a modernização da visão de segmentos privilegiados pode ter efeitos multiplicadores intensos em termos de cultura política, particularmente quando estes segmentos são freqüentemente os politicamente mais atrasados. Não há espaço aqui para fórmulas mágicas e argumentos simplificadores. É o reino do bom-senso.

O PESO DOS SÍMBOLOS

A sociedade é um organismo interativo, não se reconstrói por pedaços apenas. A melhoria do centro da cidade, região já relativamente bem equipada, deu pano a grandes discussões, em numerosas administrações, sobre a prioridade da periferia. Na realidade, se o nosso objetivo é em grande parte a mudança de cultura política, temos de utilizar ações exemplares e com visibilidade. Uma experiência em curso é a reformulação do centro de Santo André, acoplada com a rearticulação dos espaços urbanos separados pelo rio Tamanduateí. Trata-se aqui de uma reconstrução essencial do espaço de sociabilidade, vital numa sociedade atomizada onde estamos sendo reduzidos a espectadores passivos de terminais eletrônicos e televisivos. Manágua, na Nicarágua, teve o seu centro destruído por um terremoto. É muito estranho, e desorientador, ver uma cidade sem centro, sem um ponto nuclear de referência. Não é à toa que a praça é essencial na tabanca rural da Guiné-Bissau, na vila medieval, na metrópole moderna. Em Manágua, as pessoas se referem até hoje aos pontos de localização central que outrora existiram: de donde era el arbolito, dos cuadras abajo…  A árvore já não existe, o centro desapareceu, e no entanto as pessoas preferem se referir ao imaginário antigo centro do que aos novos referenciais.

Em outra gestão, de Luiza Erundina, discutiu-se duramente a conclusão ou não da reurbanização do vale do Anhangabaú. Um centro da cidade, onde estão os bancos, é coisa de rico? Ou é uma referência central de toda a população da cidade? Na realidade, à medida que tomamos consciência de que não se trata apenas de projetos, de experiências bem sucedidas no sentido de unidades experimentais isoladas, mas da construção ampla e difusa de uma nova cultura política, os próprios projetos começam a tomar outra cara. A associação Viva o Centro, de São Paulo, torna-se assim um parceiro precioso não somente porque ajuda a recuperar o centro, mas porque ajuda a resgatar a personalidade da cidade, e esta personalidade faz parte da cidadania de cada um.

A COMPLEXIDADE COMUNITÁRIA

O kibbutz  é uma chatice. Chatice mesmo, no sentido de ser um saco. Há tempos, quando assessorava a prefeitura de Santos, e mencionava a importância da sociabilidade comunitária para David Capistrano, este teve uma saudável reação horrorizada: mas isto é tudo o que eu detesto, a transformação da vizinhança num bando de escoteiros etc., etc.  Não garanto a autenticidade dos argumentos, mas a mensagem era clara. Os italianos têm uma boa expressão para os escoteiros: un bando de bambini vestiti da cretini, guidati por un cretino vestito da bambino. Não tenho nada contra os escoteiros. O essencial aqui é que temos oscilado entre visões opressivas de vizinhança que faz tudo todos juntos, e um individualismo que nos desarticula como sociedade. Como resultado prático, domina evidentemente o individualismo e a desarticulação social.

Este ponto é importante porque toca as nossas tradicionais simplificações sociais. Na nossa cabeça, sobrevivem as visões da gangorra teórica: privado ou estatal, mercado ou planejamento, social ou individual e assim por diante, heranças das grandes dicotomias do século passado. Muitos de nós visitaram, ou até conviveram, com as experiências da Emilia Romagna, na Italia. Independentemente das experiências ou projetos isolados, o que mais marca é a imensa complexidade e diversidade de soluções articuladas. Articulam-se empresas, Estado e organizações da sociedade civil; sistemas de planejamento central com mercado e mecanismos de decisão participativa da comunidade; espaços de sociabilidade diferenciada. O que estamos aprendendo, ao ver boas propostas que funcionam, e outras que não funcionam, é que temos pela frente toda a complexidade da sociedade moderna.

Articular dinâmicas diferenciadas, que obedecem a culturas e ritmos desiguais, nos obriga a exercícios mais complexos, mas sobretudo que exigem um respeito muito maior das dinâmicas sociais tais como são sentidas pela própria sociedade. É sem dúvida mas difícil ser parteiro de um meio-termo que articula interesses diferenciados, do que traçar as grandes avenidas teóricas no meio do nada. Mão-Tse-Tung disse um dia que a revolução escreve em páginas brancas, imensa bobagem que ainda parece estar presente. A revolução ocupa e articula espaços já prenhes das próprias dinâmicas, e aqui sequer temos revolução.

A nova sociabilidade que se constrói hoje traz toda a complexidade que encontramos, por exemplo, no Bowling Alone de Robert Putnam, com o novo peso da televisão e da internet, o imenso impacto da urbanização, o drama das imensas periferias urbanas, o deslocamento dos tradicionais eixos produtivos e das articulações profissionais e assim por diante.. O ator, passamos a compreendê-lo cada vez mais, não somos nós: é a própria sociedade. De certa maneira, ao ver como são diferenciadas as arquiteturas políticas de apoio às experiências que estão dando certo, passamos a entender que os caminhos têm de ser reinventados a cada vez. E cada nova experiência aumenta a nossa compreensão de como se articulam forças em torno aos processos de transformação. A gestão social, constatámo-lo cada dia mais, consiste menos em saber mandar, em empurrar o nosso modelo, do que em saber ouvir e interagir.

Bibliografia
Daly, Herman and John B. Cobb jr – For the Common Good: redirecting the economy toward community, the environment and a sustainable future –Boston, Beacon Press, 1996
Dowbor, Ladislau – A Reprodução Social –   Editora Vozes, Petrópolis 1998
Dowbor, Ladislau – O Mosaico Partido – Editora Vozes, Petrópolis 2000
Dowbor, Ladislau – Capitalismo: novas dinâmicas, outros conceitos – http://ppbr.com/ld ver Artigos Online.
Galbraith, John K. – The Good Society: the Humane Agenda –New York, Houghton Mifflin, 1996
Goudzwaard, Bob and Harry de Lange (foreword Maurice F. Strong) – Beyond Poverty and Affluence: toward and economy of care –Geneva, WCC, 1995
Henderson, Hazel – Building a Win-Win World: Life beyond Global Economic Warfare  – San Francisco, Berrett-Koehler Publishers, 1996; publicado no Brasil pela Cultrix, com o título de Construindo um mundo onde todos ganham.
Korten, David –  The Post-corporate World: life after capitalism – San Francisco, Berrett-Koehler Publishers, 1999
Putnam, Robert – Bowling Alone: the Collapse and Revival of American Community – News York, Simon & Schuster, 2000
Salamon, Lester – Global Civil Society: Dimension of the Nonprofit Sector – Baltimore, John Hopkins University, 1999
UNDP – Poverty Report 2000: Overcoming Human Poverty –New York, Undp, 2000
UNDP – Human Development Report 2000: Human rights and Human Development – New York, Undp, 2000
World Bank – World Development Report 2000/2001: Attacking Poverty­ – World Bank, Washington September 2000

[1] Ladislau Dowbor, é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da Universidade Metodista de São Paulo, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “A Reprodução Social”, editora Vozes 1998, e de numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social. Foi Secretário de Negócios Extraordinários da Prefeitura de São Paulo. E-mail ladislau@ppbr.com; home-page  http://ppbr.com/ld

[2] Lília A . de Toledo Piza Martins, é mestre em Economia Política e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-SP. É professora de economia na Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, onde desenvolve também pesquisas na área do desenvolvimento regional e meio ambiente. Publicou recentemente, em parceria, o livro “Desenvolvimento de Piracicaba – História e Perspectivas”. E-mail: lamartin@unimep.br

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