MINHA JANELA DE FRENTE…

MINHA JANELA… NO MUNDO HUMANIZADO E CIVILIZADO

SUNDERHUS; Adolfo Brás[1]

Acordei e cheguei à janela do quarto do apartamento do quarto andar em pleno coração de um bairro urbano de uma cidade humanizada. E de um sobressalto bateu uma saudade do tempo vivido no interior, na roça convivendo diariamente com um mundo rural e caipira. E além desta saudade me vem a lembrança da amplitude do ambiente que era ofertada para minha visão e agora neste momento, diante desta janela e nesta vida urbana civilizada e humanizada tenho a visão que só me da o espaço desta minha janela, que valorizo muito, pois e o espaço aberto para este mundo que tenho quando acordo, e neste valorizar me vem um novo sobressalto: estou me acostumando com esta realidade! E ai… Uma dor!

Não… Não estou me acostumando, não quero me acostumar. Quero ter a certeza que este momento esta me proporcionando uma rica reflexão sobre este viver. Mas uma verdade paira: estou me acostumando sim com o meio em que vivo e com o que ele me oferece. E toda minha inquietude não tem o tamanho e nem o poder suficiente para romper com este novo costume, que se agiganta que é o de estar me acostumando em um apartamento de uma humanidade civilizada. E diante deste novo costume fico com a visão da minha janela de frente… E em um novo sobressalto, me pergunto: como se acostumam àqueles que têm uma janela de fundos e que somente lhe e permitido ter a visão das outras janelas de fundos? E neste momento me sinto privilegiado… Um sentimento egoísta cada vez mais individualista, mas que me alimenta por ter um pouco mais… Que alguém. E este privilégio que sinto e o de poder olhar para fora e compartilhar um mundo do tamanho que a visão de minha janela me oferece e novamente fica o pensar em tantos que de tanto somente ver as janelas dos fundos logo se acostuma a não ter para onde olhar.

Vivendo um pouco mais este “meu ver” sinto uma imensa alegria de poder abrir as cortinas de minha janela de frente e ter uma visão, que se molda à medida que o crescimento físico e urbano ao meu redor se estabelece nesta cidade humanizada e civilizada. E neste crescimento, confuso e agressivo, mas verdadeiro um fato me atormentar: até quando terei esta visão, a  minha janela de frente? Quando, em que momento vou ter minha janela para os fundos? E novamente de forma individualista até quando terei um pouco mais daquele que tem somente a janela dos fundos e que por não poder olhar para fora, também se acostuma a não abrir sua cortina.

Eu deste meu espaço conquistado neste mundo de humanos civilizados desenvolvidos e humanizados me dou ao luxo de achar que estou contribuindo para a sua “sustentabilidade do planeta”, pois posso somente acender a luz um pouco depois daquele que tem a janela dos fundos. Este, talvez por se acostumar a acender a luz mais cedo consiga ter uma visão deste mundo que se molda com o crescimento e progresso se descortinando mais cedo do que a minha. Ainda no meu egoísmo posso ter o prazer de poder viver e me acostumar a ver o sol por mais tempo, ao contrario do meu vizinho dos fundos que, à medida que acende mais cedo à luz interna do seu mundo civilizado pode passar a se esquecer do sol mais cedo e perder mais cedo também o sentimento de amplitude que o ambiente com luz natural nos proporciona, além do seu calor.

E assim neste viver civilizado diante de minha janela de frente vejo que me acostumo com a crescente rotina do dia a dia do meu trabalho, com uma janela de frente que não se abre para não perder o frescor do ar gelado que lá circula. Este dia que termina ao me deitar, às vezes muito cedo e a dormir muito, muito pesado fica com a sensação de não ter podido viver o dia, pois vivi sim a batalha diária de uma guerra infindável de trabalho. E neste mundo civilizado e humanizado das cidades e das janelas de frente e das janelas de fundo passo a aceitar as intrigantes e cada vez mais constantes estatísticas dos mortos do dia a dia, escritas e descritas com detalhes, desta civilidade pelas páginas do jornal, números estes que já passam a fazer parte da visão da minha janela de frente, de uma realidade de vida tão forte que, quando não os vejo, e como se já não existisse mais minha janela de frente. E esta realidade, deste mundo e desta sociedade que estamos construindo, me leva a ser agora aquele que tem o apartamento com a janela para os fundos que se acostuma a não ter o sol, a não ter a amplitude da luz, o calor da vida e na realidade destas mortes me acostumo na possibilidade de não acreditar que posso ter paz e passo a me acostumar com o dia a dia das intermináveis batalhas de uma guerra e de sua longa duração.

E no dia a dia do meu viver de batalhas e guerras me acostumo com outras realidades postas neste mundo humanizado e civilizado qual seja a realidade de andar sem ser percebido pelas pessoas, às vezes até por aqueles com os quais convivo no meu trabalho diário. Acostumo-me a sorrir para as pessoas e a não receber o sorriso de volta… E assim vou endurecendo o meu ser e o meu viver e neste costume me vejo prisioneiro de uma brutalidade de já não levar mais até a você sequer o meu sorriso… O que me tornei?

Não quero nunca me esquecer de viver… Por isto quero derrubar as paredes que são construídas ao redor de minha vida. Paredes que são construídas pelo correr diário ao acordar de manhã sobressaltado pelo despertar barulhento do relógio que não me da o tempo de uma preguiçosa espreguiçada de todo corpo por que já esta na hora e já estou atrasado… E me vejo a tomar o café correndo sem o tempo de saborear o seu perfume caprichoso e não sentir o gostoso gosto do pão de sal quentinho com manteiga.

Fico assim neste viver humanizado e civilizado vivendo, lutando e lembrando com saudade do meu café da roça acompanhado do cantar dos pássaros. E vai chegando mais uma noite… Findando mais um dia… E ainda posso desfrutar mais um pouco do sol que se vai e acender minha luz um pouco mais tarde do que o meu vizinho das janelas do fundo enquanto ainda tenho minha janela de frente neste mundo humanizado e civilizado…


[1] Engenheiro agrônomo
CREA – ES 2146 D / 11ª Região
Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES, Brasil
ÁREAS DE ATUAÇÃO
1-         Organização Social e Redes Solidárias
2-         Microfinanças sociais
3-         Análise de Cadeias Produtivas
4-         Custo de Produção dos Arranjos Produtivos Locais
5-         Projetos Captação de Recursos – Agropecuária
6-         Projetos de Recuperação Ambiental
 

Um comentário sobre “MINHA JANELA DE FRENTE…

  1. Essas visões das mais variadas são justamente limitadas pelo próprio homem, que ao invés de tomar a iniciativa de sair pela janela e conhecer o todo do lado de fora, se limita apenas a sua janela, como assim ficavam os prisioneiros da alegoria que Platão nos trouxe há milhares de anos.

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