APRENDENDO COM A REALIDADE

APRENDENDO COM A REALIDADE E CRIANDO OPORTUNIDADES SOCIAIS E ECONOMICAS SUSTENTÁVEIS

SUNDERHUS; Adolfo Brás[1]

A vida nos oferece períodos distintos em que passamos por situações de diversidade até a perplexidade.  Estas situações ocorrem em espaços de tempo tão curtos que mal percebemos, e ocorrem, sobretudo com aqueles que se aventuram a sair seu habitat natural, do seu ambiente de conforto. Ao nosso redor temos uma infinidade de situações que estão ocorrendo a todo a todo instante de oportunidades de ganho e de crescimento econômico para uma pequena parcela da sociedade, mas ao mesmo tempo estas oportunidades não estão acessíveis a grande parcela de sua população fato este histórico onde o crescimento e a acumulação de oportunidades esta concentrada nesta pequena parcela da sociedade.

Somam-se a esta realidade os capixabas sem escolaridade, sem segurança, sem oportunidade de crescimento econômico e sendo a todo momento obrigados a criar, inovar e improvisar situações para sobreviver, e ai alguém vem e diz “o capixaba e empreendedor”, como se estivesse tecendo elogios e valorização, que acredito até que seja esta a intenção – mas como diz o ditado popular “de boa intenção o inferno esta cheio”. O que observamos e que estas “falas” não estão acompanhadas de um real comprometimento público para resolução das necessidades desta população que tecnicamente são chamadas de “população em vulnerabilidade social” falas estas “motivadoras no sentido da inclusão” que passam a ter sentido e serem perfeitamente “absorvidas como verdades” quando colocamos como ponto de comparação todas as atrocidades e negligencias cometidas a partir do jogo do ganha-ganha ou perde-perde, ou do pior perder para ganhar. Esta pratica no mínimo e assustadora. Este elemento assustador transforma-se em uma visão aterradora quando nos deparamos com a manutenção de atitudes desumanas que ferem o físico e o intelectual das pessoas e de uma sociedade gerada por uma violência domestica e coletiva. Como justificar estes atos e ações.

Neste víeis podemos arriscar que e necessário no mínimo um ajuste de nossas ações e atitudes de nossa consciência critica e de nossa capacidade formadora de novos conceitos e paradigmas. Assim nos parece que dar esmola a quem pede ou um “presente” a alguém estaremos resolvendo estas dividas históricas. Desta forma diversos subterfúgios constitucionais ao amparo legal são fortemente institucionalizados e caem na preferencia de busca da sociedade, haja visto a barganha política por emendas parlamentares e incentivos financeiros e fiscais que estão longo de serem soluções a resolver as causas estruturantes dos graves problemas que sofrem a sociedade.

O ter consciência exige de cada um de nós, sociedade e poder público a capacidade de percepção e análise não individual, mas coletiva. Nossa geração sofreu uma “educação que não formou cidadãos para cidadania, mas para competição” vendo a miséria como um castigo para alguns até de ordem divina, ou na simplificação da luta de classes e não como resultado de ações que poderia mudar esta situação e neste contexto insere-se o comprometimento ou a falta deste por parte das políticas públicas.

O Espirito Santo certamente vive como sendo o Estado, o “cara” que nos últimos 10 anos têm experimentado um forte crescimento econômico gerando riquezas e poder político que ganhando uma roupa nova passa a figurar como um exemplo a ser seguido ou pelo menos observado como processo de “desenvolvimento” sedimentado em um forte complexo social e econômico de natureza industrial que vem sendo montado e fortalecido com toa sorte de incentivos públicos. No setor rural da mesma forma vemos ganhos e aumento de produtividade com fortes ganhos econômicos pelo aumento significativo da produção caminhando fortemente para o mercado exportador. Mas neste mesmo Estado seja no meio urbano ou rural ainda vemos milhares de famílias que sequer conhecem e tem acesso à distribuição desta riqueza; neste pungente Estado capaz de ser exemplo temos homens e mulheres que convivem e catam todo lixo produzido por esta riqueza para sobreviverem. Vivemos e convivemos neste Estado com drogas que invadem de forma agressiva os lares deste mundo urbano e rural. O processo de favelização se acentua ano a ano nas regiões metropolitanas teoricamente “mais evoluídas” e com “maiores oportunidades”: onde estão? E para quem? A busca por este “eldorado”[2] que a cada 60 dias geram um milionário forjado pelo aquecimento da economia capixaba nos setores do petróleo, financeiro e da construção civil sendo este crescimento um fenômeno que esta se verificando não só no Espírito Santo, mas uma realidade do Brasil onde 19 pessoas se tornam milionárias por dia. E no mínimo contraditório quando os dados oficiais do governo nos dão conta de que temos um passivo com mais de 45 mil famílias que vivem na pobreza absoluta que são circuladas por esta realidade milionária.

E assim caminha a “humanidade capixaba” e suas políticas públicas. Um crescimento concentrador resultando em uma situação que tem se agravado com os cortes de investimento em projetos que proporcionam um resgate social. Esta busca por melhores condições, por este “eldorado” tem proporcionado um crescente processo de migração seja dentro do próprio Estado (do rural para o urbano e entre os municípios de “menor” oportunidade para os de “maior” oportunidade) gerando um gigantesco processo de favelização nos chamados “polos atraentes” de oportunidades. Historicamente os escravos foram “libertos” sem qualquer iniciativa de políticas públicas de natureza social e de inclusão produtiva e econômica e dos seus direitos políticos. Contamos ainda com o descaso público pelos trabalhadores e trabalhadoras do campo que foram dispensados de seus postos de trabalho enquanto proprietários rurais geradores de renda e trabalho e se viram desamparados ao longo de estradas formando enormes filas que hoje tentam a toda sorte estabelecerem um novo processo democrático de volta a sua origem como família rural.

Neste contexto histórico mesmo com dificuldade posso entender a necessidade do estabelecimento de políticas públicas compensatórias como as em curso, mas não abro mão de estratégias e ações incluidoras e emancipatórias. E aqui destaco dentro destas políticas o Programa Bolsa Família e o Programa Nacional de Aquisição de Alimentos – PNAE que hoje vencem o estigma de políticas compensatórias ao trazerem em sua trajetória oportunidades emancipatórias que norteiam a organização produtiva e social com geração de trabalho e renda. Não podemos admitir a volta e a manutenção de políticas assistencialistas e geradoras de exclusão com concentração e riqueza, conhecimento, renda e poder.

Fica assim muito evidente o entendimento de que historicamente apesar de todo crescimento e riqueza erramos muito no sentido do desenvolvimento sustentável e na distribuição das riquezas geradas por este crescimento. E fácil também avaliarmos este contraponto do capital, pois fortemente buscou se salvaguardar na contextualização do radicalismo ideológico carimbando uns e outros e ao mesmo tempo usando esta retorica para não fazer nada ou desenvolver ações compensatórias e pontuais claramente excluidoras de processos de emancipação para sociedade, pois o modelo proporcionou uma ausência de políticas de desenvolvimento às populações mais pobre e em maior vulnerabilidade.

Assim temos de um lado um Espírito Santo rico cuja riqueza não teve um processo de distribuição capaz de oportunizar as condições de socialização e emancipação das populações mais carentes. Estamos hoje começando a sentir a execução de programas, projetos e ações que permitam o desenvolvimento e a qualificação profissional, social, educacional e de segurança no meio urbano e rural tendo como foco as famílias em maior vulnerabilidade. No entanto precisamos compreender este novo paradigma que se forma para não imaginarmos ou prospectarmos sonhos de que em levando as oportunidades as classes mais pobres todos ficarão mais ricos. Precisamos construir as condições de sair de uma situação de doença e caminharmos a rápidos e largos passos para uma sociedade sadia e de igualdade e justiça social, econômica e política.


[1] Engenheiro agrônomo
CREA – ES 2146 D / 11ª Região
Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES, Brasil
ÁREAS DE ATUAÇÃO
1-         Organização Social e Redes Solidárias
2-         Microfinanças sociais
3-         Análise de Cadeias Produtivas
4-         Custo de Produção dos Arranjos Produtivos Locais
5-         Projetos Captação de Recursos – Agropecuária
6-         Projetos de Recuperação Ambiental

[2] publicado em A Gazeta, 30/11/2011, pág. 33

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