SEMENTES CRIOULAS

“SEMENTES CRIOULAS”: VENCENDO PARADIGMAS E CONSTRUINDO NOVOS VALORES

SUNDERHUS; Adolfo Brás[1]

A relação das sementes com o ser humano tem sua origem a cerca de 12 mil anos com uma profunda relação do homem e da mulher no processo de sua seleção e de sua guarda para utilizar na agricultura. Esta história ganha cada vez mais importância a partir do momento em que os grupos passam a perceber que podiam plantar as sementes, dando origem ao cultivo das plantas com o início da agricultura. Este entendimento foi se transformando em um saber enriquecido pelas gerações e daí surge a necessidade de selecionar as plantas de mais interesse no atendimento as necessidades desses grupos sociais. E essa história que não parou e continua muito ativa em nossos dias, pois em todo o mundo, e aqui no Estado comunidades e grupos informais e formais de agricultores familiares se dedicam a seleção, preservação e conservação das sementes, realizando em suas safras anuais o melhoramento das plantas e partir de critérios próprios e variados. Portanto quando falamos “sementes crioulas” estamos agrupando sementes, raças e mudas ou seja, evidenciamos a imensa diversidade genética presente no mundo rural e que as famílias camponesas mantém ao longo de toda sua história, se mantendo presente mesmo diante das ameaças da revolução verde e da marginalização imposta por programas governamentais que as consideravam grãos com uso definido para alimentação e não como sementes para o plantio.

Esta ação dos agricultores e agricultoras familiares em relação a conservação das sementes locais pelas famílias, comunidades e grupos leva a um diferencial importante de natureza social produtiva econômica e ambiental por tratar-se fundamentalmente da busca da autonomia, ou seja ter as suas próprias sementes para realizar o plantio a partir das estações das chuvas saindo da dependência da semente do prefeito, do patrão e das grandes empresas comerciais. A resistência e a organização das famílias camponesas permitiu o enfrentamento a essas dificuldades históricas e que se fazem presentes até hoje. Essa resistência social levou ao reconhecimento das crioulas como sementes a partir da Lei 10.711/2013 que dispõe sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas, tendo com conquista o fato de que esta lei impede que sejam feitas restrições a inclusão das sementes crioulas em programas de financiamento ou em políticas públicas de aquisição, distribuição ou troca de sementes.

A partir da revolução verde o melhoramento genético ganha cada vez mais espaços nos centros de pesquisa públicos de privados e tem como objetivo e função criar novas variedades tendo como meta altas produções. No entanto o alcance destas metas e objetivos e preciso que as “novas plantas” estejam em condições ótimas de cultivo que pelo pacote “inovador da revolução verde” impõe práticas como adubação química, uso de agrotóxicos, preparo do solo (aração e gradagem), plantio uniformes e homogêneos tornando estas lavouras vulneráveis aos ataques de “pragas e doenças” levando cada vez mais ao uso de agrotóxicos e adubos solúveis. Portanto a substituição das sementes crioulas pelas sementes comerciais foi agressiva a partir da década de 1960 com objetivo de difundir o pacote tecnológico da revolução verde, envolvendo em um esforço articulado as universidades, os centros de pesquisa, os serviços oficiais de extensão rural e as políticas de credito vigente. Ainda hoje temos forte predominância desta pratica entre pesquisadores e também junto a gestores que elaboram as políticas públicas nessa área, por terem a ideia central em que as sementes crioulas são material de baixa qualidade.

Vencendo esta cultura de não aceitação temos algumas observações tais como a de que a seleção das variedades crioulas tradicionalmente realizada pelos agricultores familiares e camponesas, não temo seu foco somente na produtividade. Exemplificando vamos nos ater a semente crioula de milho onde são avaliadas e levadas em consideração as características como a produção de palha, importante para alimentação dos animais da propriedade, o porte das plantas e a espessura do colmo, que serve de sustentação para culturas trepadeiras cultivadas em consórcio, o fechamento das espigas, que protege os grãos do ataque de insetos durante o armazenamento, ou a resistência a períodos secos, características estas tão ou mais importantes para os agricultores quanto a produtividade dos grãos. Outro aspecto importante a ser considerado e o sabor ou o tempo de cozimento que também são levadas em conta pela familia rural. Todo esse conjunto de características, presentes nas sementes crioulas confere aos agricultores familiares e camponeses mais confiança e segurança.

Esta cultura e saber passada de geração a geração entre os agricultores familiares e camponeses aliada ao conhecimento do ambiente local de produção e de seu ecossistema distingue-os na busca de segurança de suas lavouras tendo o entendimento de que são dependentes de sementes altamente adaptadas bem como da necessidade de uma grande diversidade de espécies e variedades. Este conhecimento prático e a tomada de decisão pela utilização de uma semente não adaptada a realidade da unidade de produção familiar pode representar a fome da família. Este saber não e conquistado nos balcões e prateleiras dos estabelecimento comerciais de venda de “insumos modernos”. Ele existe a partir da sabedoria e da tradição das famílias camponesas em conservar as suas sementes locais e tradicionais que sobrevivem a toda propaganda e pressão pela sua substituição pois a diversidade de variedades de sementes crioulas encontradas nas comunidades rurais e algo que impressiona e necessita de maior proteção e amparo de políticas públicas comprometidas com esta realidade, promovendo a difusão de sementes crioulas, e não de sementes comerciais, aos agricultores familiares e camponeses.

[1] Engenheiro agrônomo
CREA – ES 2146 D / 11ª Região
Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES

 

 

 

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