UM DEBATE COM GANHO SOCIAL – EDUCAÇÃO RURAL

EDUCAÇÃO RURAL E AMBIENTAL – O DEBATE SE FAZ NECESSÁRIO

Aldalgiza Ines Campolin[1]

Considerando os altos índices do êxodo da juventude camponesa nas últimas décadas e entendendo a educação como prática social e histórica, repensar a formação de jovens rurais é uma necessidade para construção de uma sociedade sustentável.

A sobrevivência das unidades de produção familiar está relacionada também à fixação da juventude no campo, tendo em vista que os filhos seriam os responsáveis em dar continuidade às atividades agropecuárias da família. Isto nos leva a refletir sobre a relação teoria e prática, educação e trabalho e, ao mesmo tempo, resgatar o significado que tem o trabalho nas condições de vida de jovens rurais.

 Discutir a realidade da juventude rural hoje, implica um olhar mais atento às suas lutas, sonhos e angústias. Significa pensar nos problemas e nas perspectivas possíveis para essa parcela de jovens que se vê na fronteira entre manter-se no campo ou migrar para os centros urbanos à procura de melhores condições de vida.

 No entanto, se ficar no campo significa encarar uma dura realidade de privações e de falta de perspectivas; migrar para as cidades traz outras sérias conseqüências como enfrentar o crescente desemprego, a pobreza e a violência.

Há ainda que se levar em conta o despreparo das jovens e dos jovens rurais, em termos profissionais, para competir no restrito mercado de trabalho urbano.

A herança profissional exerce papel fundamental na formação de jovens rurais, cuja identidade se constrói com base neste “saber profissional”, enraizado na tradição familiar.

Desta forma, a atividade agrícola permite que os jovens e as jovens rurais construam um saber que, fundamentado na atividade prática produtiva da família, se transforma em saber científico à medida que, na agricultura familiar, faz-se necessário maximizar a utilização dos recursos disponíveis na propriedade de modo a garantir a reprodução da unidade camponesa.
Isso ocorre através de estratégias variadas que incluem desde o aproveitamento dos excedentes até a busca de melhores índices de produtividade.

Para tal, os jovens e as jovens rurais buscam também os meios intelectuais presentes tanto no conhecimento recebido dos pais, principalmente os relativos à natureza e sua interferência no trabalho da terra, quanto novos conhecimentos adquiridos em outros espaços educativos, formais ou informais.

Portanto, não se pode alegar que o saber camponês seja um saber eminentemente prático, uma vez que abrange conhecimentos de geografia (clima, nuvens, ventos, etc.); físicos (topografia, solos, água, etc.), aspectos referentes à vegetação; aos animais, fungos, além de questões relativas ao mercado, políticas agrícolas e aproveitamento artesanal da produção excedente.

Conclui-se, então, que a vivência no campo permite às jovens e aos jovens desenvolver um saber próprio; fruto principalmente de suas experiências de vida e trabalho, o que demonstra a existência de um saber heterogêneo que vinculado à vida prática, permite a construção de sua identidade cultural e social.

O ser humano produz  um conjunto de idéias e representações que expressam um saber e uma consciência de sua situação histórica.

Observa-se que os jovens e as jovens vêm ampliando sua visão de realidade e perspectivas através de um conhecimento teórico vinculado à prática rural e que, de certa forma, começam a questionar os limites da tradição no cultivo da terra.

Esta reflexão desenvolve sua capacidade de avaliar desde questões relativas ao mercado para seus produtos até políticas agrícolas e as técnicas de cultivo desenvolvidas pelos pais.

Nesse processo, os jovens e as jovens rurais refletem a interferência e importância do saber científico no seu cotidiano, evidenciando que seu conhecimento prático busca fundamento nas pesquisas mais atualizadas em relação ao trabalho no campo.

Neste sentido, a pesquisa agropecuária comprometida com a sustentabilidade dos espaços rurais pode se tornar uma ponte entre o conhecimento operativo e o científico, de forma que à experiência cotidiana das jovens e dos jovens rurais se agreguem as conquistas da ciência, viabilizando a construção de um novo espaço rural no qual a juventude possa desenvolver plenamente todo seu potencial.

As instituições voltadas para educação rural e ambiental e formação dos jovens e das jovens rurais devem obrigatoriamente reconhecer o protagonismo e a importância  da juventude rural no processo de desenvolvimento sustentável da região e reforça o entendimento de que o elo teoria-prática, educação-trabalho é fundamental na busca de alternativas para a melhoria das condições de vida da população rural.

Fonte: Revista Eco 21, nº 166
[1] Pesquisadora da EMBRAPA Pantanal – Mestre em Educação

 

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