QUEM É O VILÃO NA CRISE DA ÁGUA? QUAL “AGRICULTURA”?

É PRECISO SABER QUAL AGRICULTURA, QUAL MODELO DE PRODUÇÃO É O VERDADEIRO VILÃO NA CRISE DE ÁGUA

SUNDERHUS; Adolfo Brás[1]

Nos últimos 30 dias a água tornou-se uma matéria de vanguarda em todos os noticiários e com ela vem o envelope da mídia colocando a agricultura como o grande vilão neste momento. Os dados apontam que 70% da água é utilizada na agricultura e apenas 4% dos recursos hídricos e para o consumo direto. Tudo levando a um processo de indução na sociedade urbana de que a agricultura e o agricultor são os grandes vilões, mostrando um “desperdício” de água pela produção de alimentos.

Precisamos ter claro em qual processo de produção agrícola, pois não é bem assim.. E aqui não vai um “passar a mão na cabeça” do processo de produção na agricultura, mas sim deixar claro os modelos de agricultura presente, para que todos possamos fazer a reflexão a partir de dados objetivos e concretos.

O grande vilão da água na agricultura e por parte do AGRONEGÓCIO. É o agronegócio o grande responsável pela crise de água no país. Um contrassenso pois não é o AGRONEGÓCIO o responsável pela produção de alimentos para mesa dos cidadãos em todo o país e em especial aqui no Estado do Espírito Santo. O agronegócio e voltado para a exportação que tem como princípio o uso intensivo do solo e do recurso água (lençóis freáticos) usados de forma garimpeira, severamente agredidos pelo uso constante e continuo dos agressivos químicos – adubos solúveis e agrotóxicos (venenos). Este modelo de agricultura foi implantado após a segunda grande guerra e novamente reproduzido pela Revolução Verde (década de 70) dizendo que iria combater a fome e a miséria e o que deixou foi, para além da fome e da miséria, um quadro desolador para saúde pública. Este processo de destruição ambiental e social faz parte do modelo de desenvolvimento a partir do agronegócio, que estabelece relações econômicas nacionais e internacionais garantindo o financiamento o fomento e a indução de commodities na agricultura, ofertando um pacote tecnológico onde entra fortemente o agrotóxico, os adubos solúveis e mais recentemente as sementes transgênicas. Os dados da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, indicam que 15% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam taxa de resíduos de veneno em um nível prejudicial à saúde.

A agricultura familiar, segundo dados do governo federal, é a grande responsável pela produção de alimentos para a mesa das famílias do meio urbano e rural, além de ser a grande empregadora de mão de obra na roça. E esta agricultura que leva 70% dos alimentos a mesa dos cidadãos e que promove 80% dos trabalhos na roça. É uma agricultura que, pela sua característica de mini e pequena propriedade (máximo de 50 hectares), tem sua gestão a partir da família do agricultor, tem uma forte consciência pela preservação dos recursos naturais em especial pelo recurso natural solo e água. A agricultura familiar tem sido a grande responsável no estabelecimento de um novo modelo de produção de alimentos com base na agroecologia e na produção orgânica, substituindo os agressivos químicos (adubos solúveis e agrotóxicos – venenos) pela utilização de composto orgânico. Adota a diversificação das atividades produtivas. Busca desenvolver suas atividades através do sistema agroflorestal para produção de alimentos e criação de animais. Tem como princípio manter o solo coberto com palhas e uso de leguminosas especificas que contribuem para melhorar a sua qualidade física, química e biológica. Adota a micro irrigação para fazer uso racional da água e evitar o seu desperdício associando a implantação de sistemas de conservação de solo e armazenamento de água da chuva na unidade de produção familiar. Tudo isto faz com que os agricultores e agricultoras familiares sejam realmente os guardiões ambientais e os que preservam os recursos naturais, em especial o solo e a água.

Esta é a grande diferença na agricultura que se estabelece no meio rural. O que estamos vivendo hoje, falta de água – e ninguém ainda fala da perda e da morte do solo, traz como consequência o que estamos presenciando no dia a dia, e tende a se agravar se nada de concreto for feito e que se traduz pela perda da qualidade de vida e da vida com qualidade. E isto é para todos. Pode-se apresentar em escalas diferenciadas entre os povos, entre grupos sociais e entre pessoas, mas é parta todos. Todos sofrem hoje e sofreram amanhã com a permanência desta brutalidade. E esta perda pode se expressar pela perda de nascentes de águas potáveis ao abastecimento humano, para as necessidades da agricultura e da pecuária; ao desemprego crescente que se aloja e se alicerça no mundo moderno formando um forte tecido de exclusão social produtiva e econômica na roça e na cidade; ao crescente índice de assaltos e roubos; ao empobrecimento do tecido social pelo rompimento com sua cultura, pela perda de sua identidade e de seus valores originais; pelo estabelecimento de disputas acirradas pela arrogância e pelo individualismo que assola o ser humano “civilizado”.

Estamos caminhando por uma estrada que, mesmo esburacada e com grandes precipícios, ainda podemos encontrar soluções viáveis. Precisamos, para além da reflexão do momento em que vivemos, tomarmos atitudes de praticar as mudanças de comportamento para o enfrentamento destes desafios. Precisamos gerar e colocar em prática ferramentas de marco teórico, prático e político que nos permita o resgate de valores e a criação de novos paradigmas que estejam em harmonia com a ética, com a cidadania e com o respeito coletivo dos povos e das pessoas.

Precisamos ser capazes de gerar em nossa organização de sociedade, acordos, tratados, políticas públicas e estruturas de desenvolvimento comprometidas com o ambiente em que vivemos e com nossas necessidades e sobretudo, de construímos uma ideia e uma vontade, social e política, de mobilização voltada para sensibilização, conscientização e mudança de hábitos da sociedade, na roça e na cidade.

Todos somos responsáveis diretos pelo que acontece com nossas vidas e em nossa coletividade organizada, a que chamamos de sociedade civilizada!

[1] Engenheiro agrônomo
CREA – ES 2146 D / 11ª Região
Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES

 

 

 

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