QUAL SOCIEDADE RURAL QUEREMOS CONSTRUIR?

QUAL MUNDO RURAL? QUAL SOCIEDADE RURAL QUE QUEREMOS?

SUNDERHUS; Adolfo Brás[1]

A agricultura tem experimentado fortes transformações produtivas econômicas e políticas durante sua contextualização histórica. Esta transformação tem deixado para a sociedade, rural e urbano, um conjunto de alterações sociais e ambientais que colocam em risco a sua sustentabilidade e do ser humano. De uma agricultura nômade, para atender às necessidades básicas de sobrevivência social, evoluiu ao longo de milhares de anos buscando atender ao crescimento da sociedade em necessidades de sustentação e reprodução.

Durante o processo histórico de evolução a agricultura buscando vencer este desafio experimentou um processo de crescimento construído sobre o uso dos recursos naturais de forma acelerada dentre os quais por desmatamento, esgotamento do solo, uso indiscriminado da água e pelas práticas agrícolas que provocam arraste de camadas férteis do solo pela erosão além do uso contínuo e crescente de agressivos químicos – agrotóxicos (venenos) e adubos químicos solúveis.

A adoção deste método de produção rompe o equilíbrio natural dos ecossistemas e dos ambientes de produção invertendo a lógica da sustentabilidade da agricultura até então centrado na sua interligação e interação com os ciclos da natureza, que pressupõe um ” “tempo de não trabalho” uma vez que o processo de produção está baseado em uma sequência do plantio – crescimento – florescimento – amadurecimento – produção – colheita – comercialização, sendo esse um ciclo de capital lento, que não altera o ciclo produtivo.

Impor a este sistema natural um processo de produção com base no crescimento econômico a qualquer custo promoveu alterações significativas em especial aquelas de disputa e competitividade, levando a perda dos valores culturais, do espírito de solidariedade e rompimento de relações comunitárias e de organização social e dos valores e saberes da agricultura familiar e com forte descriminação de gênero e geração.

A resposta para romper com este processo de acumulação de renda e poder não é tão simples. As propostas de ação passam obrigatoriamente por uma fundamentação de base de re-formação dos agricultores e agricultoras familiares e camponeses, tendo estes como os protagonistas desta construção contemporânea. Portanto precisamos colocar na mesa esta discussão sim, respondendo qual tipo de mundo rural, qual sociedade queremos? Vamos construir um debate para um mundo rural, uma sociedade com apenas algumas grandes empresas, de alta competitividade nacional cada vez menos empregadora de mão-de-obra, para uma sociedade econômica limitada a uma parcela da população? Ou queremos um debate para construção de um mundo rural, uma sociedade com cenários de inclusão social e a promoção de justiça social com exercício de cidadania. Somam-se a este desafio a importância do protagonismo das mulheres e dos jovens do campo e da cidade, que deve ser incorporada pelo conjunto das ações próprias desta discussão e desta busca para que possam construir uma sociedade onde não haja desigualdades de classes de raça, de gênero e de geração.

Aceitando a discussão destes paradigmas, definindo qual sociedade optamos por construir e viver, podemos estabelecer uma nova relação da agricultura familiar e camponesa do Estado com a sociedade e com as políticas públicas, estadual e municipal para este segmento sócio produtivo.

A diversidade produtiva, pluriatividade e a organização social da agricultura familiar e camponesa do Estado deixa evidente que esta ação bem como a sua operacionalidade e execução, a partir do poder público serão fundamentais para a formação e capacitação dos participantes de forma individual e coletiva constituindo um princípio diferencial e estruturante para agricultura familiar e camponesa e suas relações sociais e políticas.

Ressalta-se ainda que, ao atuar e estabelecer um olhar para formação e capacitação do agricultor familiar e camponês, podemos estabelecer um projeto continuo e dinâmico, que será parte de um conjunto de etapas desta formação qual seja, a partir da inserção e do protagonismo dos agricultores familiares e camponeses e não pelo simples olhar de uma determinada atividade produtiva. Esta ação deve constituir-se de forma objetiva em seus aspectos de planejamento e da participação em que se mobiliza e se motiva um grupo de pessoas introduzindo-as na discussão do novo espaço rural, de um novo processo produtivo, político e de mercado, oportunizando o “estar juntos” o qual permite as pessoas e suas organizações sociais reconstruírem relações sociais entre eles, bem como destes com parte ou com toda comunidade onde se dá o projeto oportunizando um novo despertar da identidade e do pertencimento das famílias ao mundo rural, a roça.

Este aspecto relacional, a partir deste momento, passa a ser disseminado internamente e externamente entre os indivíduos e suas organizações sociais, possibilitando a formação de redes de relacionamento, produção, comercialização e consumo como elementos fundamentais para sua emancipação produtiva, econômica, social e comercial, oportunizado  uma interação entre os diversos componentes da agricultura familiar e camponesa em sua diversidade de produção, transformação dos produtos, de comercialização, do meio ambiente e das políticas públicas, promovendo a sua qualificação individual e coletiva, permitindo solidificar conhecimentos para o ganho sustentável em escala de produtividade e rentabilidade final para melhoria da qualidade de vida da família rural.

[1] Engenheiro agrônomo

CREA – ES 2146 D / 11ª Região

Graduação em Agronomia – UFES, Alegre – ES

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